Análise: Star Wars – Os Últimos Jedi

Há muito tempo atrás, em uma galáxia muito, muito distante…

Você que não se arrepia vendo essa frase em uma tela escura, provavelmente não vai entender minha mistura de sentimentos ao escrever essa análise do episódio 8 de Star Wars: Os Últimos Jedi. Caso queira entrar nesse universo, assista pelo menos o episódio 7: O Despertar da Força antes de ir ao cinema para conferir o último lançamento da franquia.

O episódio 7 termina com a Rey encontrando o Luke na ilha perdida de Fernando de Noronha (ops, não!) para entregar o sabre de luz e conhecer sobre sua Força. Enquanto isso, os rebeldes continuam seus planos para a destruição da Primeira Ordem (antigo Império) e Kylo Ren caminha para finalizar seu treinamento com o Snoke.

Apesar de ser uma criação de George Lucas em 1977, todos os diretores que passam pelos episódios da franquia dão seu toque pessoal. E nesse episódio 8, o diretor Rian Johnson interpretou de forma magistral o universo Star Wars. Não foi nota 10 de 10 mas chegou bem perto disso. É sempre bom lembrar que não se trata de um filme de ficção científica e sim um filme de fantasia, por isso não se deve esperar muitas explicações científicas na obra. Se você encarar assim, com certeza vai se divertir muito mais. =)

Começa aqui a zona de Spoilers!

O interessante de Star Wars é o ciclo constante que permeia todos os episódios. Falas e situações são repetidas entre um e outro filme. As trilogias de Star Wars geralmente seguem seu padrão: os episódios 1, 4 e 7 dão o início da história, o despertar de algo para ter sequência. É o começo das jornadas dos heróis Anakin, Luke e Rey, respectivamente.  

Os episódios do meio são quando os heróis entendem seus destinos, suas vocações, e vão trabalhar nisso. Buscam um treinamento e aprimoram o seu dom natural. E é isso que acontece em Os Últimos Jedi com Rey encontrando o Luke em sua ilha asilo, mas o filme não foi recheado do óbvio. Entendemos que Luke tem suas dificuldades em ensinar uma padawan tão poderosa e que ele tenta recorrer para a literatura e misticismo da ilha, até mesmo materializando a Força, se esquecendo que ela é o que move tudo na natureza. E isso é lindamente ensinado pelo Mestre Yoda (gritos insanos pelos fãs com a aparição desse verdinho fofo).

Luke Skywalker nos ensina através do seu treinamento com a Rey que a vaidade e o ego são as piores barreiras para o treinamento do padawan. Todo mestre pode cometer erros e aprender com eles. Luke realizou o primeiro treinamento com o Kylo Ren e falhou ao interpretar algo que não tinha sido revelado.

Nas trilogias anteriores, os heróis e os vilões tinham seu papel bem definido e, quando migravam para o lado sombrio da força, passavam da luz para as trevas. Senti nessa nova trilogia um novo pensamento sobre heróis e vilões quando luz e trevas se misturam um pouco e neste universo fica impossível não dizer que os dois lados têm seus tons de cinza.

Enquanto Rey e Luke estavam tendo seu momento de professor e aluna e muitas vezes se confundindo com pai e filha, Kylo Ren consegue se conectar com Rey e a energia dos dois através da Força é tão grande e poderosa que conseguimos sentir sentados em nossa poltrona do cinema. É muito interessante como duas pessoas tão fortes se vêem confusas diante de suas escolhas.

A Primeira Ordem sofre na mãos dos Rebeldes mas também dizima boa parte deles, mesmo com os melhores planos para destruir esse imperialismo. E aqui quero destacar um ponto importante: algumas franquias hollywoodianas colocam os jovens como heróis e aqui Star Wars parecia ir por esse caminho. Poe Dameron, Finn, Rey, Rose, Kylo se opuseram aos conselhos e orientações dos mais velhos, querendo resolver do jeito deles. São imediatistas naturalmente pelas idades e inexperiência, mas o longa com seus desfechos honrou a experiência dos cabelos brancos de Yoda, Léia, Luke, e Almirante Hodor.

Apesar de trazer muitos ensinamentos e apresentar as belezas da ilha, o filme tem também muita dose cômica. Peixes Gigantes, leites tirados das tetas de bichos estranhos, cuidadoras que parecem vindas do mundo dos hobbits, e os Porgs, criaturinhas que tiveram um destaque exagerado no longa. E sobre esse lado cômico de Star Wars, algumas pessoas se incomodaram com o excesso de piadas que tiveram no filme, mas só tenho uma coisa para falar: as pessoas envelheceram e se esqueceram dos gritos do R2D2, do Han Solo tirando onda com a Princesa Leia, do Ben Kenobi irritando C-3PO e dos Ewoks sendo os salvadores do Retorno de Jedi.

O filme é empolgante na maior parte dele, cheio de fan services, batalhas e lutas do jeito que queremos ver, diálogos inteligentes com várias pitadas de humor e belíssimas cenas. Apenas um arco que achei cansativo: quando Finn e Rose vão para a missão no Cassino, mas que serviu para explicar algumas coisas: como os rebeldes vão ressurgir, algumas discussões sobre corrupção e escravidão e por que nem todos se aliaram à rebelião.

E a guerra nas estrelas? As batalhas entre naves, encouraçados e caças que queremos sempre ver nas trilogias de Star Wars foram apresentados logo nas primeiras cenas e foi de tirar o fôlego.

Star Wars, apesar de ser um filme de fantasia, aprendo muito com ele e me gera boas reflexões. Sobre respeitar a maturidade dos mais velhos, ouvir a “Força” em primeiro lugar, entender que você não precisa ser alguém importante para receber uma missão e um dom, o fato de que estar em grande multidão não necessariamente é estar no time certo e vencedor, e aprendi também que um sonho se torna real e vivo quando é passado de geração em geração.

Nota 9/10

  • http://www.longocaminho.com.br/ Marcelo Rorschach

    Cada palavra nesta sua crítica está errada… 😉

    (adorei isso)
    (e o quanto o filme te tocou, também)

  • https://kaoraglobal.com Vinicius Moraes

    Muito boa a crítica! Pra mim, apesar de não ter sido 10/10, foi o melhor do ano!

  • Giancarlo Marx

    Sensacional! E pra quem achou a veia “loser” do Luke incompatível com um jedi, é melhor rever a trilogia clássica. A lição que tiramos ao conhecer Obiwan, Yoda (e agora repetida com Luke) é que aparentemente todo jedi, no final contas, vai acabar descobrindo que é uma farsa. E invariavelmente termina se isolando num canto obscuro do universo esperando a própria morte.

    Trazendo pra uma aplicação prática, quantos pastores têm sofrido o mesmo ao lidar com sua própria incapacidade? Se sentem fracos, sobrecarregados, e sem um par a quem recorrer. Toda expectativa colocada sobre suas costas acabam transformando irmãos nossos em seres frustrados e isolados.

    Mas diferente dos Jedis, nós não manipulamos a “força”, né? Pelo contrário. Somos instrumento de Deus pra realizar a vontade dele. O que no fim das contas nem depende de nós (graças a Deus). Tá na hora de tomarmos um caminho diferente. Quem sabe até dar um abraço naquele pastor, líder ou missionário que você sempre considerou “o cristão perfeito”, “a pessoa inatingível” e dizer no ouvido dele com toda humildade: “Sei que não é fácil. Conte comigo.”

    Talvez assim tenhamos menos Jedis se isolando em Fernando de Noronha.

    Ou talvez tenhamos mais. Não sei. Heheheheh!