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31/10/2006
O Evangelho do Cinismo


por Fabrício Batistoni

“Como pudestes então, tu e o teu marido, fazer uma coisa destas para enganar o Espírito Santo? Olha, ali mesmo à porta estão os jovens que foram enterrar o teu marido e que te vão levar a ti também.” 1

Cinismo. Do gr. kynismós, pelo lat. cynismu. Substantivo masculino. 1. (...) 2.P. ext. Impudência, desvergonha, desfaçatez, descaramento. Cf. cenismo.

    Bolívar Echeverría definiu acertadamente que o cinismo se converteu “no sintoma mais característico da civilização atual”. Para o filósofo equatoriano, o cínico é alguém, por exemplo, “que exerce a corrupção como substantivo válido do respeito a lei. Alguém que não sente escrúpulos ao utilizar em benefício próprio os pontos de fracasso de uma forma institucional vigente, as zonas cegas onde ela e as normas derivadas dela se mostram incapazes de organizar adequadamente o conteúdo social que as havia reclamado e ao que elas aparentemente respondem. Alguém que aproveita a falta de fundamento último ou natural sobre a que se sustenta a necessidade das normas estabelecidas.” (...)
Atores são cínicos. Vivem de representação. Beatriz Segal que o diga... mais de uma década depois ainda é lembrada pela terrível vilã Odete Roithman, cujo papel desempenhou tão bem que a estigmatizou a ponto de ter feito poucos trabalhos após Odete. Nas telas ou no teatro, entretanto, sabemos que estamos assistindo um ator representando um determinado papel. O entretenimento não sobressai nosso julgamento da realidade.

Políticos são cínicos. Semelhantemente vivem de representação. Confrontada pelo jornalista Willian Bonner a respeito da discrepância entre o programa do seu partido e as entrevistas de campanha, a candidata Heloísa Helena ficou encurralada entre afirmar os ideais esquerdistas do seu partido com o discurso de campanha e tentou sair pela tangente dizendo que programa de governo não era o mesmo que programa de partido. De forma inteligente encenou dois personagens – a política idealista e a eleitoral.

Religiosos são cínicos. Em nome da promoção da pax mundi Ratzinger desfala. Alegando que outro escreveu o que ele pregou, tenta corrigir o erro que cometeu, na tentativa de unir duas religiões diametralmente opostas. Cometeu o erro de Adão ao terceirizar a culpa entre os redatores do Vaticano.

É óbvio que as afirmações acima não são absolutas, ou auto-excludentes. Nem todos os atores são cínicos (daí vários são chamados canastrões por não convencer o público dos seus personagens), assim como nem todos políticos ou religiosos são cínicos.

Quando nos tornamos cínicos? Pelo radical, cinismo está relacionado com cenismo donde deriva encenar. Lembre-se de Ananias e Safira. Imagine como eles combinaram a cena para ludibriar os apóstolos. Afinal, quem poderia descobrir o valor real da fazenda? Vamos dar somente parte do dinheiro, dizendo ser tudo, e ver no que este negócio de igreja vai dar! Afinal a gente precisa se resguardar... sabe... recessão, inflação... vai que o messias demora pra voltar e os apóstolos administrem mal o nosso dinheiro! Ao ler o relato a respeito de Ananias e Safira, com terror podemos afirmar que eles armaram toda aquela cena para enganar os apóstolos e parecer algo que de fato não eram.

Cristãos verdadeiros também são cínicos. Somos cínicos quando não temos autenticidade em admitir nossas fraquezas. Somos cínicos ao inadmitir nosso próprio pecado, ou fazemo-lo apenas para justificar nossa falta de interesse por santidade, ou para endossar o direito de apontar o pecado alheio. Aprendemos as técnicas de quebrantamento, arrependimento e confissão que convencem os mais céticos a respeito da nossa sinceridade. Aprendemos o que falar em momentos de tristeza de tal forma que deixe claro nossa resignação, enquanto nosso coração se contorce em gemidos inexprimíveis de rancor, mágoa e questionamento. Justificamos nossa indisposição no estudo bíblico devocional insistindo que a experiência é mais importante do que o conhecimento, esquecendo-nos que a fé vem pelo ouvir... Existe cinismo nos pregadores que não são isentos quando expõem a Palavra, antes usando dos púlpitos para todo tipo de prática repugnante como mandar recado à um desafeto, manipular a congregação, fazer campanha política em troca de favores, etc...

A Bíblia não alude qualquer benefício para o cinismo. Jesus foi um crítico ferrenho à hipocrisia dos fariseus. Apesar de ter demonstrado exímio zelo pelas coisas de Deus, não poupou esforços para derribar as barreiras do cinismo, da religião institucionalizada que se importava mais em manter as aparências do que cuidar das vidas estilhaçadas pelo pecado.

Jesus nos dá bons remédios para o cinismo. Quando se encontrou com a mulher do poço dirigiu-lhe a palavra dando o primeiro passo rumo ao transformador encontro. No leproso que gritava: Filho de Davi tem misericórdia de mim, ele tocou. Seu coração se enfureceu ao ver a Casa de Oração transformada e covil de salteadores e, não temendo as represálias, manifestou-se. Foi capaz de, com uma frase – esta noite me negarás três vezes -, desnudar a fragilidade da fé de Pedro. Uma frase também foi suficiente para constranger os que iriam apedrejar uma mulher adúltera. Com uma frase curou um jovem em casa, mesmo sem ir ter com ele, mostrando que o poder de Deus não necessita de cerimônias xamanistas para invocar os super-poderes divinos. Seu calendário de vacinação contra o cinismo foi publicado sobre um monte, onde proferiu as bem-aventuranças àqueles que cultivassem os traços de caráter que, juntos, combateriam de forma extraordinária o cinismo que era, que é e que há de vir. A do centurião (ao crer estar o seu filho curado, mesmo sem vê-lo), a obediência do cego (ao lavar os olhos sujos de lodo no tanque), a humildade da mulher cananéia, o despreendimento de Levi ao seguir o mestre (... pegue a sua cruz e siga-me)...

Nem sempre somos cínicos com intenção de enganar alguém. Recentemente conheci histórias de pastores que, após muitos anos de ministérios sentiram-se exaustos e incapazes de seguir com o ministério pastoral. No entanto, enfrentaram um grande tabu para falar a respeito das suas dificuldades, de sorte que por muitos anos sofreram veladamente, enquanto suas congregações não podiam imaginar o que acontecia. Aparência externa é fruto de disposição interna. Quando tentamos manter uma aparência externa sendo desonestos conosco mesmos, o maior enganado não é a sociedade, mas nós mesmos.

Gostaria de convidá-lo a conhecer alguns traços de caráter que nos tornam cristãos mais autênticos, derribando as barreiras do cruel evangelho do cinismo que se assenta no nosso meio.

Até breve.

Próximo artigo: Escola de Caráter

Notas:

1 Atos 5:9 (NVI)



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5 comentários

Verdades tão simples como as expostas neste texto é que têm o poder de realmente desnudar o nosso coração. To esperando a continuação...
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Thaíse
Gyn
31/10/2006, 14:13:29

Poxa... muito claro... tb aguardo a continuação
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Elisama
Volta Redonda
31/10/2006, 15:12:22

Mais atual que nunca, mais usual que em qualquer época, o cinismo é o câncer, que degrada, enfraquece, e derruba ao chão. O cinismo é a madeira corroída pelo cupim, vulnerável que aguarda o dia da queda. ATENÇÃO CRENTES, é o que ouço dessa mensagem penetrante.
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Flávio Costa
Muriaé
31/10/2006, 17:07:38

Realmente o cinismo tem um grande poder de enganar a ponto de nós mesmos nos enganar-mos se pratica-lo, como o irmão comentou. É tremeda essa matéria estou aguardando sua continuação!!!!
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José Augusto dos Santos
Sorocaba
07/11/2006, 10:28:03

Precisamos voltar urgentemente à essência do evangelho de Jesus Cristo.
(0) (0)

Cláudio Antônio da Silva
São Leopoldo
10/01/2014, 11:46:29

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