Transcrição do podcast #4: Dar esmolasTranscrição do podcast #4: Dar esmola
[Abertura]
[Paulinho] Bom dia, boa tarde, boa noite. Este é o quarto programa do podcast irmaos.com, e nós vamos ter aqui uma novidade que nós chamamos de “Papo de crente” com a participação de Priscila, Priscila, Márcio, Adriana e Paulinho.
Então, o que vocês acham? Uma coisa que eu sempre fico na duvida, na questão do farol, do semáforo. Dar dinheiro ou não dar para as pessoas que pedem?
[Adriana] Não.
[Paulinho] Por que?
[Adriana] Porque você pode estar incentivando alguma coisa ruim.
[Priscila] As vezes não...
[Adriana] Mas acontece o seguinte, as pessoas que trabalham, que pedem dinheiro no farol elas utilizam o dinheiro tanto pra beber, quanto pra comprar as coisas, quanto pra comer. Como você vai saber se seu dinheiro vai ser pra comer, beber...?
[Paulinho] Mas quem é você para julgar? Como você vai julgar, que a pessoa vai fazer com o dinheiro? A bíblia não fala para a gente dar?
[Adriana] Não...
[Priscila] Eu acho que a melhor maneira de ajudar os necessitados, nesse caso, é uma organização de pessoas comprometidas que pudessem fazer algo muito além de dar um dinheiro, simplesmente, pra pessoa; de pessoas realmente comprometidas em levantar, por exemplo, um abrigo que as pessoas pudessem passar por lá, quando elas quisessem conversar com alguém, ou, quando elas quisessem comer. Isso é uma coisa que a gente não vê muito, eh..., no meio evangélico.
[Adriana] Mas até isso acontecer, se isso acontecer. Vai continuar do mesmo jeito que está. Eu com a minha correria, que eu estou, do meu trabalho, não sei se vou participar de um negócio desse. Então, eu teria que arrumar um jeito de poder contribuir com isso. Mas até contribuir vai ficar do jeito que está, e até começar vai continuar do jeito que está. Então... vai continuar assim.
[Paulinho] A gente vai continuar com as pessoas no vidro do carro pedindo, e a gente sem saber o que fazer. E também não tem como, se todo semáforo que a gente parar, for dar dinheiro, não sobra nada. né?!!!
[Adriana] Não é bem assim!
[Priscila] Ajudar os necessitados, não significa necessariamente dar dinheiro pras pessoas que estão no semáforo, as vezes pode significar isso também. Eu acho que o que conta, não é necessariamente o que a pessoa vai fazer com o dinheiro que você deu pra ela, essa parte já não cabe a você. Cabe a você identificar as necessidades do próximo, e ajuda-los a suprir essas necessidades que eles tem.
[Márcio] É, é bem assim mesmo, porque... eu já ouvi falar que uma pessoa, ela deixa no carro assim, um pão, algum alimento, e daí quando essa pessoa vem pedir dinheiro pra você, você tem um Clube Social com um folheto do lado, porque é o que você vai poder oferecer na hora pra aquela pessoa. Talvez você não vai poder estender mais a longo prazo, por causa da correria do dia-a-dia, você vai ter aquele alimento, que vai suprir a necessidade básica dela ali naquele momento e um folheto pra suprir a necessidade espiritual.
[Priscila] Agora, mais alto do que um folheto, que você não sabe nem se aquela pessoa que está pedindo dinheiro no semáforo é capaz de ler, mais alto do que um folheto que você der pra ela, vai falar a sua atitude em relação a ela, não no caso de dar dinheiro ou não, mas da maneira como você corresponde a abordagem daquela pessoa pra você. A pessoa te aborda te pede dinheiro, qual é sua reação? Qual o tipo de olhar que você remete a aquela pessoa? É um olhar de desprezo, é um olhar de piedade, ou é um olhar de amor, de alguém que identifica as necessidades reais daquela pessoa, não simplesmente a necessidade de ter um alimento para comer, mas muito mais forte do que essa necessidade, é uma necessidade de ser reconhecida como pessoa.
[Márcio] Você vai ter que transparecer a diferença que Jesus fez na sua vida.
[Priscila] Então. Mas, aquela pessoa tem a necessidade de ser reconhecida como uma pessoa e não como um mendigo. Você como cristão, deve ter a sabedoria de perceber que a necessidade dessa pessoa é muito mais do que um simples alimento.
[Adriana] Eu concordo com tudo isso, acho isso tudo muito bonito, de nós podermos transmitir que nós nos importamos com essas pessoas. Mas gente, ser assaltado no semáforo, é muito fácil. Eu vou trabalhar, às seis horas da manhã, tudo escuro, eu vejo uma pessoa no semáforo, eu fecho o vidro, vidro fumê, escuro, e vou embora. Porque eu já vi casos de gente ser assaltada no semáforo, todas as pessoas nos aconselham a fazer isso, ficar de vidro fechado. Mas ai, como ser cristão, numa cidade tão violenta? Correndo o risco de ser assaltado, ou até mesmo de perder sua vida.
[Márcio] Se você fechar o vidro pra todos, a criminalidade vai continuar, e a fome vai continuar, o descaso pela humanidade vai continuar.
[Paulinho] E a gente, vai se isolar no nosso mundo, né, a criminalidade la fora, a gente aqui dentro...
[Priscila] A verdade é que como indivíduo, é bem complicado você fazer bem a muita gente, morando numa cidade como São Paulo ou em qualquer outra cidade grande que você encontra o mesmo tipo de problema, e... o Filipe Iansem fala muito sobre isso nos livros dele, que muitas vezes nós queremos abraçar o mundo, fazer bem a muita gente, acabamos criando várias teorias, só que na verdade você poderia estar fazendo diferença na vida de uma pessoa apenas. Eu por exemplo, passo sempre no mesmo semáforo quando eu vou para o trabalho, tem sempre as mesmas pessoas lá; talvez se eu parasse pra conversar com elas, pudesse identificar algumas necessidades mais práticas ao em vez de ser só aquilo dali que ela está pedindo no semáforo, talvez se eu investisse numa vida, e se cada uma pessoa que se compromete com Deus resolvesse investir numa vida, você pode ter certeza, que isso vai fazer diferença, e vai ser um efeito em cadeia, que não vai ser só pra vida daquela pessoa, mas pra vida das pessoas que ela conhece, eu acho que se a gente resolver fazer diferença na vida de uma pessoa, isso já vai fazer muita diferença.
[Paulinho] Então. É que a gente não consegue pensar individualmente, as vezes. A gente pensa em solucionar o problema da humanidade. O problema da fome, o problema da marginalidade e o que eu vou fazer não vai fazer diferença nenhuma, e as vezes, pra vida daquela pessoa que você fez, é a diferença da vida dela.
[Adriana] Ninguém fica sozinho num semáforo pedindo dinheiro, eles sempre ficam em três, quatro pessoas, se você impactar a vida de um, ele vai estar impactando a vida daquelas outras três pessoas. Então assim, a idéia da sociedade lá é muito boa, daquele abrigo que as pessoas podem contar, mas a gente que não participa tem que ajudar de um jeito diferente, no individualismo mesmo. Aí vai depender de cada um.
[Priscila] Na verdade, existem vários setores de necessidade que a gente pode identificar, se a gente ficar observando, uma tarde assim..., passeando por um bairro de São Paulo, de Belo Horizonte, que seja, uma cidade qualquer. Se você parar para observar, você vai identificar várias necessidades, você vai identificar as necessidades das pessoas deficientes, você vai identificar das pessoas mais velhas, você vai identificar as necessidades dos pobres, e dos que são pobres e deficientes, e assim, vai setorizando vários problemas, que na verdade como um individuo, é muito difícil a gente conseguir atingir todos esses setores ao mesmo tempo. Agora, atingir um individuo, se – eu sei que é muita utopia falar isso – mas, se uma pessoa se comprometer a ajudar outra pessoa, ela vai estar fazendo mais, do que se ela parar e pensar em teorias pra ajudar a todos e não fizer nada.
[Paulinho] É assim que começa, é assim que começa qualquer mudança, e cada pessoa é uma vida. Eu gosto de pensar isso. Eu chego numa rodoviária, eu vejo aquele monte de gente reunido, se você pensar, você tem uma história enorme, cada um de nós tem uma história enorme, cada pessoa tem uma história enorme, se você for conversar com as pessoas necessitadas da rua, cada um vai ter uma história de vida. Quantas coisas não aconteceram, a uma pessoa de dezessete, vinte anos de idade? Quantas coisas não aconteceram na vida dela? Quanta coisa que precisa ser trabalhada, precisa de ajuda, carente mesmo, precisando de atenção? Então é..., é individualizando isso que a gente vai conseguir atingir os objetivos. Não é tratando coletivamente. Eu acho que é aí que o cristão deve fazer diferença no mundo.
[Adriana] Mas, pra isso, a gente precisa já começar a mudar na nossa cabeça, que pra ir trabalhar a gente sempre sai em cima do horário. Então, você vê uma pessoa no semáforo, você não vê a hora de abrir o semáforo pra já sair correndo pra ir embora para o trabalho. E na verdade, o que a gente tem que fazer mesmo pra conquistar as coisas que a gente leva daqui para o céu, a gente não está fazendo.
[Priscila] Eu acho, que a primeira coisa que a gente tem que mudar, é o nosso olhar, pra todas essas coisas. Porque morando no Brasil, nós nos acostumamos a ver esse tipo de senário, onde a gente olha pra esquina, tem três mendigos, a gente olha pra outra esquina, tem mais cinco, e tem um grupinho ali... Eu passei essa semana mesmo, em uma esquina, aqui em São Bernardo, tinha uns dez mendigos juntos, comendo uma “gororoba” lá qualquer, e eles iam dormir numa marquise lá. Lá em Brasília, eu vejo muito isso, toda cidade que eu vou; uma vez eu fiz um trabalho na faculdade sobre pobreza, e o que a Organização da Nações Unidas faz pra combater a pobreza na prática. Eu sai buscando algumas fotos de vários países que eles atuaram, e dentro do site deles tenha um setor de fotos, desses países, que eles tiravam antes de fazer os trabalhos. Quando eu vi foto do Brasil de São Paulo e da região Norte do Brasil, que eles colocavam, mendigos e catadores de lixo e de papel, como é diferente você ver que eles estão contextualizando aquilo dali como uma coisa anormal, pra a gente isso já se tornou uma coisa muito normal. E depois que eu fiz esse trabalho, quando eu passo na rua e vejo um mendigo, uma prostituta, alguma coisa assim, uma criança trabalhando, eu preciso me dar conta de que isso não é normal, que eu tenho que fazer alguma coisa. Mas, igual a Adriana falou, pra mim que sou mulher por exemplo, é muito complicado, quando eu passei em frente esses dez mendigos, era umas dez horas da noite, eu falei – eu queria poder fazer alguma coisa – mas, se eu chegar lá e falar: “Jesus te ama” e não fizer nada, ...cadê?!! Por onde vai se manifestar o amor de Jesus? Por uma simples palavra? Ou, eu poderia fazer alguma coisa? Ah, mas, são dez homens, se chegar lá uma mulher, o que é que vai acontecer? Então tem todas essas coisas envolvidas, por isso eu acho que, a gente tem que agir individualmente, pensar numa pessoa como uma pessoa, fazer uma coisa por ela, e se a gente quiser fazer a diferença na vida de de mais pessoas, tem que ser uma coisa organizada, por mais utópico que isso seja, vai deixar de ser utópico a partir do momento que a gente resolver, parar, pensar a longo prazo e agir.
[Paulinho] Será que as igrejas estão preparadas para receber essas pessoas?
[Priscila] Eu sempre ouço essa história, de um pregador que ia pregar, tipo, num sábado, numa igreja, na sexta ele se vestiu de mendigo e ficou lá na porta, e aí as pessoas foram lá, tiraram ele de lá, pediram licença pra ele, ele saiu e no outro dia, quando ele foi pregar, ele contou o que tinha acontecido, contou que tinha se disfarçado e como tinha sido a atitude da igreja, aí ele começou a pregar sobre o amor que a gente deve demonstrar como cristão.
[Paulinho] Quantos bêbados a gente já não viu sendo retirados de reuniões? Tudo bem que às vezes eles não estão nem em condições de prestar atenção, estão, tal vez tirando a ordem do culto, perturbando, eu sei, mas quem somos nós, mais uma vez, quem somos nós pra julgarmos essas pessoas e tirarmos elas de ouvirem a palavra. Eu já ouvi o testemunho de pessoas bêbadas que se converteram, que tiveram encontro com Cristo e se transformaram, drogados, né, tem gente que vive bêbada.
[Adriana] Eu acho que a palavra-chave, a palavra chave é como a Priscila falou mesmo, a gente não deve se conformar com isso, não deve achar que isso é normal, ver pessoas pedindo dinheiro, ver pessoas bêbadas jogadas na rua e a gente olhar aquilo como se fosse normal. a gente não pode se conformar mesmo, aquilo tem que incomodar, tem que incomodar porque é o amor que nós temos que transmitir para elas.
[Priscila] E tem que se transformar em passo, de fato, transformar-se em prática, em ações pragmáticas pra resolver aquele problema. E uma das coisas que a gente precisa resolver, que me preocupa muito e que acontece, eu acho que em todas as igrejas, é quando chegam essas pessoas, esses bêbados, esses mendigos que muitas vezes vão ali movidos por uma sede, que está na alma, por mais bêbados que eles estejam, mas que eles estão precisando de um lugar...
[Paulinho] Talvez nem sabe o que é, mas sabe que talvez na igreja ele encontre aquilo.
[Priscila] Isso, e eles vão até ali e muitas vezes são expulsos, se decepcionam e nunca mais pisam em uma igreja, ficam traumatizados e com razão. Como a gente pode preparar as pessoas da igreja, fazer um ministério, conversar com alguém, pedir orientação, divina mesmo, pra fazer um ministério que possa estar cuidando desses aspectos que são como brechas, né, que a gente se preocupa muito com o louvor, com ações sociais, sopão, etc, etc, mas, na hora dessas sutilezas, assim as vezes, pelo olhar que se acostuma, a gente nem percebe, né, tem que se tornar em paz, isso que é importante.
[Márcio] Isso, eu acho que é..., como já falaram, muito bonito mesmo a gente falar sobre isso, né, mas, eu acho que a gente tem que trabalhar isso primeiramente na vida de a gente, né. Você passa perto de uma pessoa já está cheirando meio mal, você já passa meio de largo, né, como na parábola do bom samaritano, eh... se a gente trabalhar isso primeiramente na nossa vida, a gente vai poder mostrar para os outros essa diferença que a gente faz, né, quando enfrenta uma situação desse tipo.
[Priscila] Ninguém melhor pra nos dar o exemplo a respeito disso, do que o próprio Cristo, que condenado por andar com pessoas desse tipo, de pessoas de classe baixa, pessoas que certamente cheiravam mal, tinham uma aparência suja, uma aparência que afasta geralmente as pessoas, e foi essa a razão de Ele ter contado, a parábola do bom samaritano e é isso que Ele espera de nós como cristãos, não apenas cristão que vão à igreja, frequentam assiduamente, participam dos trabalhos.
[Paulinho] Tem uma boa palavra pra dar, mas, que não faz a ação, né?!
[Priscila] Isso. Exatamente. Mas que saibam identificar essas necessidades que muitas vezes a gente se acostuma.
[Adriana] É. Você falando nisso, agora eu lembrei daqueles mendigos, daquelas pessoas derrotadas que Davi reuniu lá naquela caverna, na caverna de Adulão. E a bíblia...
[Paulinho] Grande Adulão.
[Adriana] Grande Adulão. E a bíblia relata que eles eram pessoas derrotadas, eram pessoas derrotadas, eram pessoas que já não tinham mais nem vontade de viver, estavam lá, jogadas, abandonadas, e que de repente se transformaram em valentes. Então, assim, quanto potencial tem as pessoas que estão por aí jogadas, podem se tornar valentes.
[Paulinho] Bom gente, nosso tempo acabou, a gente continua esse ou outro papo noutra ocasião, mas por enquanto é só. Eu quero o “Tchau” de todo mundo aí.
[Todos] Tchau.
[Encerramento]
[Adriana] Só uma pergunta, coloca no final. - E você? Qual é a sua reação mediante a isso?
[Paulinho] Tá bom, ótima pergunta.
Transcrito por Elias Paiva |