Análise: Um Lugar Silencioso

Ouvir sobre um filme pode matar sua experiência no cinema, então tenha cuidado. Não farei uma crítica da obra, muito menos tentarei explicá-la. Quero apenas compartilhar reflexões sobre alguns temas abordados que ficaram na minha cabeça. Quando li a sinopse de Um Lugar Silencioso, fui pensando em coisas como: “Em boca fechada não entra mosquito”. Na Bíblia, o alerta sobre os pecados que cometemos com nossas palavras, figurados pela língua, é recorrente. Devemos ter muito cuidado com o tal poder da língua. O livro de Provérbios diz que esse poder é – simplesmente – o poder sobre a vida e sobre a morte (Pv. 18.21). No capítulo terceiro de sua carta, Tiago a compara a uma pequena chama que incendeia uma floresta, dizendo ainda que está cheia de veneno mortal e que, com ela, maldizemos os homens após bendizermos a Deus. Jesus, que não joga conversa fora, não deixou quieto: disse que, no dia do juízo, os homens darão conta de todas as palavras inúteis que tiverem falado, que elas nos justificam ou nos condenam (Mt. 12.36,37). Não sei se ela sabia as referências bíblicas, mas minha avó dizia que quem fala demais dá bom dia pra cavalo (e me parece que Jesus vai pedir conta de cada bom dia dado). Tal ditado poderia ser a nova versão de Provérbios 10.19, que diz: “quando são muitas as palavras, o pecado está presente, mas quem controla a língua é sensato”.

Em “O Sobrinho do Mago”, C.S. Lewis figura no universo fantástico o poder de autodestruição dos seres humanos através de uma palavra, a Palavra Execrável. É a palavra que vale mais que mil gestos. Trata-se de uma expressão – ainda bem que ele a mantém em segredo – que destrói todas as formas de vida, usada por Jadis para vencer uma batalha e destruir Charn, o reino que ela mesma desejava dominar.

Será que, se tivermos consciência do quão valiosa e poderosa é a nossa voz, falaremos o “neee-cessário, somente o necessário, o extraordinário é demais”? O cuidado com a utilidade do que falamos também é recomendado pelo apóstolo Paulo em Efésios 4.29. Enfim, o desafio da comunicação é grande, muito mais entre pais e filhos. Nessa relação as palavras têm um peso muito grande, parecem potencializadas, mas elas nem sempre estão presentes em sons e ruídos. Agora eu começo a falar de filho. Sim, quando a gente se torna pai, acaba sempre falando de filho. Então, vamos lá: minha esposa e eu resolvemos deixar nosso menino com os avós para irmos ao cinema depois de um ano e dois meses desde a última seção do casal, pais de primeira viagem babões e protetores. O que vamos ver? O suspense “Um Lugar Silencioso”. Não demora para percebermos que se trara de uma história sobre pais e filhos e, durante a seção, só consigo pensar em quem? No meu filho e em quanto silêncio eu devo dar a ele.

O filme apresenta uma terra onde os pais correm o risco de destruírem seus filhos com uma simples expressão, ou aplauso, ou beijo estalado, ou raspar de garganta, ou “tsc tsc tsc” soado no momento e lugar errado. Um mundo onde a dor, até mesmo da morte, não pode ser expressada em gritos e soluços, mas apenas nos olhos e no silêncio, onde você protege a criança lhe ensinando a resignação na resistência ao mal, expondo-a a uma vida que foi invadida por seres terríveis que estão a realizar suas atrocidades por aí, mas sem alardes. Nesta situação, a única forma de controlar o que ocorre ao seu redor é controlando a si mesmo. Aí, um gesto passa a valer mais que mil palavras e, uma palavra, passa a ter valor imensurável, enquanto o pai luta com todas as forças para ser ouvido por seus filhos, em especial a filha adolescente. A princípio pensei que se trataria de censura, mas logo vemos que a questão vai além. A poesia está na escassez e no poder do som.

Em “Um Lugar Silencioso”, as cidades estão vazias e destruídas, certamente por serem ruidosas, enquanto algumas famílias sobrevivem em redutos silenciosos no campo. John Krasinski (que dirige, atua e tem parte no roteiro) cria um pós-apocalípse onde recursos materiais são facilmente obtidos, não há escassez nem mesmo de remédios e até mesmo cilindro de oxigênio e eletricidade estão disponíveis. Mas, onde o silêncio impera, as vozes são tão raras que passam a ser muito valiosas e, como todo bem valioso, não podem ser usadas em qualquer lugar e de qualquer forma. É preciso criar um ambiente ou situação onde seja possível usá-las em segurança: seria o lar? A fala adquire uma preciosidade semelhante às quinquilharias que Robinson Crusué – ou o Tom Hanks, caso prefira – retirava do naufrágio: coisas que antes eram esbanjadas e desperdiçadas. Li de Chesterton esta analogia (em “Ortodoxia”), e em seguida ele diz que todo homem é sobrevivente de uma terrível aventura: o nascimento. E que todas as coisas passaram por uma espécie de salvamento “por um triz”. Assim percebemos que também sobrevivemos a um naufrágio, assim como Crusué, ou a uma invasão alienígena, como a família no filme e estamos a salvar nossos bens.

Há uma certa celebração da vida no filme. Sobreviver a um parto é um milagre, ainda mais num mundo onde o choro, seja do bebê, seja da mãe, é letal e é daí que vêm os momentos de maiores tensão do filme – e da vida da gente: quer suspense maior que um parto? E a maternidade dói, com dores que foram multiplicadas e, quando você se vê com um bebê, começa a estar mais atento aos monstros que invadiram o mundo. Mas em “Um Lugar Silencioso” há espaço para a esperança, para a contemplação do grande milagre da sobreviência, mesmo cientes de que o choro – expressão mais rudimentar do desejo e do egoísmo humano, segundo Agostinho – também deve ser controlado e que cabe aos pais criarem o lugar onde seus filhos possam se expressar através dele.

Como dito na recomendação de Deus aos Hebreus que entrariam na terra de Canaã, em Deuteronômio 6, na história de Krasinski os filhos também são instruídos através da presença dos pais, sentados à mesa ou no caminhar junto – caminho que o menino (Noah Jupe) teme, mas que o leva ao lugar onde podem conversar, desde que falem baixo, por isso precisam estar próximos. Numa breve jornada, o menino é retirado do seio da mãe (Emily Blunt) e aprende a encarar seus medos, sobreviver e proteger. Ah, como desejamos poupar os olhos de nossos filhos, mas não podemos evitar que os monstros apareçam. A jornada tem seu ápice no momento em que o pai revela que existe um lugar onde até gritar é possível e (por que não?) relaxar e contemplar. Sim, no mundo invadido ainda existe, em paradoxo, a beleza da qual podem fruir. Proteger e guiar, essa é a história. O pai marca o chão onde se deve pisar, faz os caminhos e constrói um lugar onde o diálogo pode acontecer em segurança, um abrigo onde ocorre uma rara cena com diálogo fundamental na história: o que somos nós se não protegermos nossos filhos? Mas não se anime por muito tempo, o mal penetra por pequenas frestas e chega a nossos redutos mais secretos. O importante é termos força suficiente para resistir, sobreviver e celebrar. Pois, se a morte é tão presente, a vida passa a ser um tipo de prazer e excêntrico privilégio.

“Um Lugar Silencioso” nos mostra apenas como ter voz onde o som não é tolerado, que a filha adolescente (Millicent Simmonds) precisa e pode ouvir o pai, mesmo quando isso é impossível. Que o amor não é uma frase, mas atitudes, como disse o apóstolo João: não amemos de palavras nem de boca, mas sim de atitudes e em verdade (1Jo. 3.18) . Que o homem pode ser abnegado e a mulher muito, mas muito forte. Ele celebra a poesia dos limites.

Apaixonado por animação stop motion, Peanuts, romances russos, fábulas, fantasia e teologia; gosta de escrever e desenhar.