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Confiamos…

Ao dizermos que cremos na Bíblia, estamos dizendo que cremos numa hierarquia histórica de homens. Explico:

Em primeiro lugar, estamos confiando nos tradutores que traduziram do texto original em grego, hebraico e aramaico para a nossa língua. Nós, pobres mortais ignorantes das línguas antigas, dependemos do trabalho feito por João Ferreira de Almeida, que para a nossa felicidade era um pastor protestante (por isso quis traduzir a Bíblia para a língua popular. Se fosse católico não iria fazer isso naquela época, embora séculos antes reis de Portugal encomendaram traduções da Bíblia para o português, não porém para o povo, mas para a realeza).

Em segundo lugar, e antes dos tradutores, dependemos dos copistas ou escribas, que, antes da invenção da imprensa, eram encarregados de fazer novas cópias dos pergaminhos das Escrituras quando estes já estavam velhos e se decompondo. Confiamos que eles não acrescentaram nada à Palavra de Deus. E, de fato, existem vários manuscritos das Escrituras de diferentes lugares do mundo que diferem entre si, mas não em questões essenciais.

Em terceiro lugar, e antes dos copistas, dependemos daqueles que, no princípio da Era Cristã, decidiram quais escritos eram canônicos (inspirados) e quais eram apócrifos (falsos).

Em quarto lugar, e antes da formação do cânon do novo testamento, dependemos finalmente dos autores dos livros. Confiamos que eles não inventaram histórias, mas escreveram somente a Verdade. O autor do Evangelho de Lucas afirma ter feito uma pesquisa histórica com testemunhas oculares. Confiamos que todos os escritos da Biblia tenham este caráter.

Com relação ao Velho Testamento ocorre a mesma coisa:

Em primeiro lugar, confiamos nos escribas judaicos que conservaram as Escrituras do tempo de Esdras ao tempo de Jesus, bem como nos tempos anteriores, sempre que os manuscritos precisavam ser substituídos.

Em segundo lugar, confiamos nos judeus que decidiram quais escritos eram canônicos e quais eram apócrifos, pois também no Velho Testamento existiram escritos considerados apócrifos, alguns dos quais se encontram nas Bíblias Católicas.

Em terceiro lugar, confiamos que Esdras ou outros escritores da época do exílio na Babilônia não inventaram nada para melhor comandar o povo judeu na re-ocupação da terra, mas apenas copiaram e organizaram manuscritos escritos por profetas em tempos anteriores nos antigos reinos de Israel e Judá. Da mesma forma, também confiamos que na reforma do rei Josias ele não inventou as Escrituras para fortalecer seu governo, mas apenas achou o Livro da Lei que estava perdido (algo semelhante ao que aconteceu no final da Idade Média, quando muitos encontraram a Bíblia, que era mantida escondida pela Igreja Católica). Também confiamos que a promessa de que a família de Davi permaneceria sempre no trono não era algo inventado para assegurar o poder do clã davídico sobre o povo, mas era uma profecia messiânica (afinal, o povo precisava mesmo de um rei, e Davi foi um bom exemplo de sinceridade e coragem). Confiamos que os patriarcas Abraão, Isaque e Jacó serviam mesmo ao Deus Vivo YHVH (Javé) e que Moisés, ao escrever o Gênesis, não inventou este Deus e não tomou personagens idólatras descrevendo-os como monoteístas.

Além de confiar em toda essa hierarquia de homens, ainda há pessoas que nunca tiveram a curiosidade de ler a Bíblia completamente, dependendo de pastores e pregadores, que podem pregar conforme a Bíblia ou conforme doutrinas equivocadas e enganosas. Mas de fato, a Bíblia não é um livro fácil de se entender, e dependemos mesmo, pelo menos por um período de tempo, de mestres que nos ensinem a lê-la. Bons mestres nos ensinarão a entender a Bíblia. Falsos mestres nos enganarão com picuinhas.

Conheçamos a Deus e tomemos conhecimento sobre em quem estamos confiando.