Quando o novo se torna velho

Amigos, prezados amigos. Por um lado, tenho vergonha de tê-los abandonado nas últimas semanas. Já se vai um mês que escrevi o último artigo. Se meu chefe editor não fosse tão compassivo e longânimo, teria por certo perdido o emprego. Não posso culpar o tempo. Ele não voa. Ele é o mesmo desde que nascemos. As mesmas 24 horas disponíveis nas semanas em que consegui entregar meu trabalho no prazo. Se não administrei direito o que tinha à minha disposição, só me resta pedir perdão e tentar melhorar. Obrigado pela compreensão. Obrigado por aqueles que me ligaram e escreveram, incentivando e dando força para voltar logo. Depois de viagens abençoadas em três fins de semanas consecutivos (Governador Valadares – uma terra onde quero voltar logo! Franca – um acampamento como há muito tempo não via: simples e eficiente! Nova Friburgo – visita pela primeira vez, para uma congregação impressionantemente atenta e participativa!) e muito trabalho durante a semana, estou aqui, para alegria de alguns e preocupação de muitos.

Estamos na reta final da campanha política para as eleições majoritárias de 2006. Um momento histórico da vida nacional. Está muito difícil decidir, para variar. Precisamos votar conscientemente, ponderar, analisar, conversar a respeito, ler alguma coisa, procurar conhecer os candidatos. Um desses recursos de análise é o Otário, quer dizer, o Horário Eleitoral Gratuito. Em tese, é o espaço público em rede nacional para que candidatos exponham à opinião popular suas propostas, seus planos e idéias.

Não é preciso dizer muito sobre isso. Confesso aos amigos que, no começo, eu assistia para formar um juízo a respeito de quem votar. Passados alguns dias, descobri outro motivo, menos nobre, para ver pelo menos uns 10 minutos por dia: como eu pago meus impostos em dia, não devo a ninguém e procuro viver honestamente, decidi que eu teria o direito de rir um pouco, sem pagar mais nada por isso. Porque não há outra razão para ver aquele circo. Os que estão no poder, seja no estado, no governo federal, no congresso ou no senado, falam da situação do país como se estivessem narrando a vida na Suíça. Não pode ser do Brasil, do nosso Brasil tupiniquim que eles estão falando. Pelo menos não é o país que eu encontro todos os dias nas ruas, nos hospitais, nas escolas públicas, no judiciário lento e falido, nas filas da previdência e no preço da gasolina. Por sua vez, chegam aqueles que já foram poder, ficaram lá um tempão e nada fizeram, vindo agora para dizer o que deve ser feito. De duas, uma: ou aprenderam o que não sabiam durante o tempo em que ficaram fora do governo ou são mentirosos contumazes. Com todo o respeito à opinião do amigo leitor, fico com a segunda opção.

Agora, tem alguns jargões que me deixam indignado. Por exemplo, veja quantos candidatos que se apresentam dizendo isso ou alguma variante: “votem em mim porque sou honesto. Vou cumprir o meu mandato com ética”. Ora, pipocas. Será que isto é uma virtude a ser propalada a quatro ventos em uma campanha? Sempre pensei, porque fui ensinado assim em casa e pela Palavra de Deus, que ser honesto e ético era uma obrigação básica de qualquer ser humano. Nunca pensei que um dia estas qualidades óbvias de caráter e decência seriam guindadas a uma condição de virtude exclusiva para quem quer exercer um cargo público.

Depois tem aqueles que vêm com a história de “você me conhece!”. Por favor, senhores candidatos, não tirem conclusões apressadas. Não conheço, não. Até porque procuro ser bastante seletivo na escolha de meus amigos. Não conheço a maioria deles, porque o que deixam conhecer é quase sempre a ínfima parcela do que escondem até de si mesmos.

Mas o pior deles, que dá o mote a este artigo, é o famoso “Vote no João para a renovação”. Ou “É hora de renovar, vote no Jabesmar”. Ou ainda “Para uma renovação bacana, vote deputada Ana”. Por misericórdia, alguém poderia me explicar o que esse povo entende por “renovação”? Renovar o quê? Renovar como? Como é bonito usar termos que expressam e evocam sentimentos positivos, que fazem a gente pensar no futuro, em transformação, em novos horizontes. Mas como é feio saber que a frase certa na boca da pessoa errada torna os sentimentos mais nobres nos mais vis. É como a mulher bonita que não tem discrição, no dizer de Salomão: jóia de ouro em focinho de porco.

Esta história de renovar me faz pensar em tantas e tantas pessoas que no reino de Deus têm um discurso de mudança, de “vamos fazer uma coisa diferente”, mas que no fundo, no fundo, não têm proposta alguma para caminhar nesta direção. São meros políticos em época de campanha, buscando o poder a todo custo, sem ter a mínima noção do que precisa ser feito, quanto menos sobre como fazer. É gente que no máximo consegue mudar as moscas, mas nunca vai conseguir remover o lixo. Gente que ataca e endereça perfumarias, assuntos periféricos, mas que nem sabe direito qual é o verdadeiro problema ou o que realmente precisa ser renovado.

Cada vez mais me convenço de que a verdadeira renovação, o verdadeiro avivamento, não se programa nem se prevê. Mudanças efetivas, históricas e duradouras são fruto muito mais da entrega e do compromisso à visão de Deus do que da prancheta e do blá-blá-blá das infindáveis reuniões de planejamento. É muito menos, se é que tem algo a ver, com nossas propostas e muito mais algo que Deus coloca no seu coração como resultante de uma busca sincera, de um debruçar em lágrimas sobre a Sua Palavra, procurando saber o que realmente O agrada, de joelhos parelhos no chão, do que da nossa petulância, nossos esquemas engendrados na calada da noite para assumir o poder e o controle das coisas, das “costuradas políticas” para granjear apoio (apoio até de quem um dia falamos mal) para nossas maquiavélicas intenções.

E, lamentável como possa ser, cada vez mais me convenço de que no Reino de Deus agimos muito mais com a proposta do mundo falido, da política suja e vazia, do que com “as armas não carnais da nossa milícia, poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando sofismas e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus” (II Co 10:4,5).

É por isso que muita gente anda ganhando a eleição, mas a vida do povo continua cada vez mais miserável, pobre, cega e nua.

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