Home Notícias Brasil Projeto de lei quer transformar eutanásia em crime hediondo

Projeto de lei quer transformar eutanásia em crime hediondo

Uma audiência sobre eutanásia foi realizada na Câmara dos Deputados, sugerida pelo deputado Dr. Talmir (PV-SP), autor de um projeto de lei (PL 2283/07) que transforma essa prática em crime hediondo. Na audiência, o pastor Abner de Cássio Ferreira questionou se a eutanásia seria uma forma de manter a vida enquanto ela é digna.

O advogado e especialista em biodireito José Miranda de Siqueira afirmou ontem que a discussão sobre a eutanásia não é possível do ponto de vista da legislação atual. Ele lembrou que a Constituição tem como cláusula pétrea a garantia do direito inviolável à vida (artigo 5º) e, por esse motivo, a única chance de se discutir a legalidade da eutanásia seria por meio de uma assembléia constituinte.

“O ordenamento jurídico nacional jamais reconheceu a eutanásia, dada essa inconstitucionalidade”, disse Siqueira, durante audiência pública promovida na manhã de ontem pela Comissão de Seguridade Social e Família.

O advogado explicou que o único reconhecimento que poderia haver sobre a eutanásia no ordenamento jurídico brasileiro está no Código Penal (parágrafo 1º do artigo 121), que permite a redução da pena para quem cometeu homicídio por motivo de “relevante valor social ou moral”.

A audiência sobre eutanásia foi sugerida pelo deputado Dr. Talmir (PV-SP), que é autor de um projeto de lei (PL 2283/07) para transformar essa prática em crime hediondo. O projeto será votado pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania.

A eutanásia já é proibida no Brasil e em diversos países do mundo. Na maioria das vezes, ela consiste na injeção de anestésicos até que o paciente terminal morra sem dor.

Interrupção do tratamento

Para Dr. Talmir, a vida não deve ser abreviada por nenhum procedimento. Além da eutanásia, ele condena procedimentos considerados pela classe médica como menos radicais, como a chamada ortotanásia, em que o tratamento médico é interrompido até que o paciente morra naturalmente.

“Não existe meio termo. Na definição grega, a eutanásia é uma morte boa. Porém, se for feita com o fim de abreviar a vida do ser humano, seja pela ortotanásia, seja pela distanásia, é um assassinato.”

Também na audiência, o pastor Abner de Cássio Ferreira disse que a prática da eutanásia, além de ilegal, vai contra o juramento de Hipócrates – declaração feita por médicos na ocasião da formatura e que trata da ética no relacionamento com as pessoas. O pastor questionou, ainda, se a eutanásia é uma forma de manter a vida enquanto ela é digna.

O médico Rodolfo Acatauassú Nunes, representante da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), disse que é contra qualquer tipo de procedimento que resulte na morte de um doente terminal. Ele afirmou, no entanto, que é a favor de ações para trazer conforto ao paciente no fim da vida, como a opção pela não introdução de procedimentos de ressuscitação e o uso de anestésicos para aliviar a dor de pacientes terminais.

Decisão do paciente

O assessor jurídico do Conselho Federal de Medicina, Daniel Novaes, disse que o conselho é contra a ideia de eutanásia, mas defendeu a discussão sobre a ortotanásia para evitar o prolongamento desnecessário do sofrimento de um paciente terminal.

Já o diretor de Comunicação da Associação Médica Brasileira, Elias Fernando Miziara, afirmou que, se a eutanásia fosse permitida no Brasil, a decisão sobre o procedimento não poderia ser do médico. Para ele, essa decisão deveria ser exclusiva do paciente, que teria a liberdade de escolher “seu caminho de vida”, quando tiver certeza de que a vida não lhe será mais útil.

Íntegra da proposta:

– PL-2283/2007