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Na direção certa

“Todavia, andemos de acordo com o que já alcançamos” [1].

Roy Angel era um pregador batista pobre com um irmão milionário.

Isso aconteceu nos dias da alta do petróleo na década de 40. O irmão mais velho de Roy teve a sorte de possuir o pedaço certo de terreno nas pradarias do Texas, na hora certa. Quando vendeu, ele se tornou multimilionário da noite para o dia. Construindo sobre essa fortuna o Angel mais velho fez alguns investimentos estratégicos na bolsa de valores e depois lucrou com vários negócios em crescimento. Mudou-se então para um apartamento de cobertura num grande prédio na cidade de Nova Iorque e gerenciava seus investimentos de um escritório luxuoso em Wall Street.

Uma semana antes do Natal, certo ano, o rico empresário visitou o irmão pregador em Chicago e deu-lhe um carro novo – um Packard brilhante, último tipo. Roy sempre mantinha o carro novo numa garagem-estacionamento, onde ele ficava sob os olhos atentos do garagista. Foi por isso que ficou surpreso quando chegou para pegar o Packard certa manhã e viu um jovenzinho mal vestido com o rosto encostado numa das janelas do carro. O rapazinho não estava fazendo nada suspeito, obviamente apenas admirava o interior luxuoso do veículo.

– Alô, filho, – disse Roy.
O menino olhou para ele, – Esse carro é seu, patrão?
– Sim, – respondeu Roy, – É.
– Quanto custou?
– Não sei realmente o preço dele.
– Quer dizer que é o dono do carro e não sabe quanto custou?
– Não, não sei. Meu irmão me deu de presente.

Ao ouvir isso, os olhos do garoto se arregalaram surpresos. Ele pensou um pouco e disse depois com um ar de desejo sincero: – Eu queria… Eu queria…

Roy pensou que sabia como ele ia terminar a sentença. Pensou que diria: – Eu queria ter um irmão assim.

Mas ele não disse. O menino olhou para Roy e disse: – Eu queria… Eu queria ser um irmão assim.

Isso intrigou o ministro e (porque aqueles eram tempos mais inocentes) disse: – Olhe, filho, quer dar uma volta?

O garoto respondeu imediatamente: – Claro que quero!

Os dois entraram então no carro, saíram da garagem e percorreram vagarosamente a rua. O menino passou a mão pelo tecido macio do assento dianteiro, aspirou o cheiro do carro novo, e tocou o metal brilhante do painel. Depois olhou para o novo amigo e pediu, “Patrão, será que poderia passar pela minha casa? Ela fica só a alguns quarteirões daqui.

Roy supôs novamente saber o que o garoto queria. Ele pensou que seu desejo era mostrar o carro para alguns dos meninos da vizinhança. Por que não? Orientado pelo jovem passageiro, Roy parou na frente de um velho conjunto habitacional.

– Patrão, – disse o menino quando pararam na esquina, – pode ficar aqui apenas um minuto? Volto já!

Roy concordou e o rapazinho correu para a entrada do prédio e desapareceu.

Depois de uns dez minutos, o pregador começou a imaginar onde o garoto teria ido. Ele saiu do carro e olhou para o alto da escadaria sem iluminação. Enquanto olhava, ouviu alguém descendo devagar. A primeira coisa que viu emergindo das sombras foram duas perninhas finas e tortas. Um momento depois, Roy compreendeu que era o menino carregando outra criança menor, evidentemente seu irmão.

O garoto colocou gentilmente o irmão na ponta da calçada. – Viu? – disse ele com satisfação, – É como eu lhe disse. É um carro novinho em folha. O irmão deu para ele e algum dia eu vou comprar um carro assim para você! [2]

Vivemos preocupados em encher nosso celeiro de bênçãos. Muitos cristãos do nosso dia-a-dia fazem do serviço cristão e da vida reta uma forma de `extorsão` tão maldita e pecaminosa quanto a praticada pelo mais corrupto dos homens.

Você já se preocupou com o que sai de você? Sim, o que emana da sua vida? Paulo, no texto bíblico acima, nos convoca a andar de acordo com o que já alcançamos. Observo que a maioria dos cristãos sonha mais do que vive. Despende-se grande tempo enchendo as vasilhas. Pouco deste tempo, porém, é empregado para espraiar o que recebemos do Senhor.

Talvez isto seja conseqüência do pensamento de consumo, cuja proposta exalta aqueles que alcançam, recebendo o direito do usufruto como prêmio. Infelizmente não é esta a lógica que rege a vida cristã. Não somos chamados para ser poupança de bênçãos, mas sim celeiros. Quem vier a nós tem que sair satisfeito com o que de nós sai.

É verdade que às vezes não achamos em nós muita coisa para oferecer. Tenho vivido esta realidade ultimamente. Embora tenha me graduado em Medicina há pouco mais de um mês (minha colação ocorreu em setembro de 2003), tenho vivido a realidade da prática médica a tempo suficiente para sentir-me profundamente esgotado física, emocional e espiritualmente. Ainda mais neste ano em particular, em que enfrentarei diversos concursos para concorridas residências médicas, e por isso, tenho dedicado todo meu tempo livre aos estudos e revisões terapêuticas. Sinto que não estou tendo muito o que transbordar!

Confesso que, nos momentos em que estou com meus irmãos na fé, estou me limitando tão somente a receber… quem sabe em uma tentativa desesperada de abarrotar minha “conta-corrente espiritual” para os dias desgastantes que tenho vivido. Ocorre que não é isto que Deus espera de mim.

O Espírito do Senhor tem me convocado a mudar esta situação. Não importa o quão cansado, exausto e vazio eu me sinta. Se eu sou chamado Filho do Deus Altíssimo, já tenho o bastante para meu próprio sustento e para compartilhar com os outros. “Está aí um rapaz que tem cinco pães de cevada e dois peixinhos; mas isto que é para tanta gente?”[3]. A resposta humana à pergunta dos ingênuos discípulos seria: NADA. A resposta de Deus foi: “… porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza”[4].

Notas:

[1] Filipenses 3:16 [2] MEHL, Ron. Deus trabalha no turno da noite, pp.74-76 [3] João 6:9 (ERAB) [4] Cf. 2 Coríntios 12:9