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Máscaras que massacram

Graças a Deus, fui abençoada com um convívio próximo entre gente destemida e corajosa pra ser sincera. Às vezes, meus amigos de vinte e poucos anos parecem ter trinta, tamanho seu esclarecimento e maturidade pra perceber algumas sutilezas da realidade. Não têm vergonha de falar aquilo que pensam nem de ser sinceros, nem de chamar atenção, nem de criticar. Não têm medo de abrir os olhos pra mostrar a verdade, não maqueiam a realidade pra ficar bonitos, nem colocam uma máscara que esconda as raízes dos problemas.

É difícil confessar erros dos mais secretos, e admitir auto-questionamentos agressivos ao nosso próprio padrão. Difícil enxergar certos buracos da nossa alma que há tanto tempo tapamos jogando algum material não muito profundo por cima. Difícil enxergar quão rasamente vivemos, em contraposição à profundidade com que enxergamos. Nessas horas, conto com um time que, sem medo de errar, tem me ensinado com intensidade cada vez maior que vale a pena passar por todas essas dificuldades e vencê-las. Que mexer em todas as feridas, ainda que isso atraia olhares curiosos e muitas vezes condenadores, faz bem à alma, e dá paz de consciência.

Basta um olhar, um comentário, um desabafo, uma colocação, uma confirmação, um questionamento, uma constatação sincera, uma pergunta, uma expressão espontânea, uma preocupação, ou uma simples percepção desses meus perspicazes amigos, e meu frágil mundo belo pode ruir. Minhas feridas ignoradas podem novamente se fazer doer.

Essas pessoas, que eu abençoadamente escolhi pra estar perto e partilhar de perto a vida, não têm medo de me dizer o que quer que seja. E isso me faz amá-las de maneira ainda mais convicta e especial. Elas são como anjos de luz a iluminar-me o caminho. Não apenas a parte percorrida com os pés e alvo do olhar atento, mas também os cantos escuros em que se escondem os aspectos mais subjetivos: minhas feridas, princípios que impensadamente me governam, o lado negro de mim mesma, e de tudo o mais que me cerca.

Dou graças a Deus por ter me cercado de gente assim… e peço a Ele que eu também seja sempre assim. Que nunca tenha medo de dizer a verdade em amor, mas que sempre tema esconder o que se faz sincero em meu coração, e a realidade que me cabe ver, seja ela feia ou bonita.

Ainda mais penetrante do que a opinião de meus grandes amigos é o toque sobrenatural do Senhor sobre a nossa alma. É o olhar de Cristo a nos fitar profundamente, revelando a nós algumas verdades que insistimos em ignorar. Ele também não esconde aquilo que nos dói. Não tapa nossas feridas nem as faz desaparecer em um toque de mágica – mas nos convida a curá-las aos pés da cruz. A cruz onde ele mesmo foi ferido por nós, demonstrando um amor profundo e, definitivamente, sem máscaras.

Num dia desses, graças ao olhar profundo de Cristo sobre mim, e a conversas com alguns desses amigos destemidos e sua brilhante capacidade de não temer a sinceridade, dei de cara com velhos buracos, antigas feridas e alguns princípios esquecidos dentro de mim. O encontro foi doloroso e marcado por lágrimas, porém absolutamente necessário. E, certamente, menos dolorido do que a convivência que cegamente os ignorasse e fingisse desapercebê-los.

Afinal, nada pode ser mais dolorido do que viver de máscaras. As máscaras massacram a alma. Não só a de quem usa, mas até mesmo de quem, sem saber, delas desfrutam. E falo isso com propriedade, porque minha máscara já magoou muitos, e já fui muito ferida por máscara alheia.

Que Deus nos ajude a tirar de nós as máscaras… e nos faça ter forças pra enxergar e viver a realidade como ela é, e transformá-la no que preciso for. A realidade que não é bela como belas são as máscaras que usamos todos. Mas cuja falta de beleza estética compensa-se na beleza profunda que só a verdade pode ter, e na força com a qual apenas a transparência consegue atravessar o olhar.

Priscila Sanches – desmascaradamente decepcionada e chateada com a cruel realidade observada ante a falta de máscaras. Mas disposta a “esquecer-me das coisas que para trás ficam e avançar para as que diante de mim estão”. Caminhar meu caminho e trilhar minha estrada, sem, contudo, ignorar ou esconder os buracos que nela há. Vou cuidar de cada um deles, esvaziando-os de toda mágoa e ressentimento, e preenchendo-os com o que há de mais seguro a fim de que não se abram mais: a compreensão, a sensibilidade e o amor. Sem máscaras.

Que assim seja.