Amigos, caiu por terra o ar de superioridade. Aquele olhar de cima para baixo, como se ainda Napoleão Bonaparte estivesse vivo e dominasse o mundo. Vejam como os caminhos do esporte são tortuosos e surpreendentes. Um dia, conduz aos píncaros da glória. No outro, leva às raias do desespero e da loucura. A França não é tudo aquilo. Eles são o São Caetano do futebol mundial: ganharam uma vez e nunca mais vão conseguir repetir o feito. Como brasileiro, não tenho muito do que reclamar. Uma vez que nosso time foi aquele fiasco, a respeito do qual me recuso a tecer mais qualquer comentário, o que eu poderia querer mais? Ver a França perder o jogo por causa de um argentino chutar um pênalti na trave (Trezeguet nasceu na Argentina) e ainda com o Zidane expulso, até que não foi tão ruim.
A final da Copa do Mundo da Alemanha não poderia ter sido pior. Um dos jogos mais horrorosos da história do futebol, protagonizado por duas seleções de 3ª categoria, mas que, afinal de contas, conseguiram superar seus adversários e chegar à final. Se no futebol o que interessa é bola na rede do adversário e não levar nenhuma na sua, eles foram os melhores do torneio. Mas que foi uma final sem graça, isso foi. De um lado, um país mergulhado em denúncias de resultados forjados, com envolvimento de jogadores, clubes e dirigentes. De outro, um time que achava que só ele merecia vencer e não conseguiu assimilar a derrota com decência. Não é dor de cotovelo porque o Brasil ficou de fora. Em 90 isso também aconteceu e a final entre Alemanha e Argentina foi um jogaço. Uma Copa tão chata e de tão baixo nível como esta, só poderia terminar assim, em que a coisa mais comentada do jogo não são os lances bonitos, os gols e ou as variações táticas, mas a cabeçada de um jogador no tórax do adversário.
Esta nota final foi realmente triste. Saber perder é tão importante quanto saber ganhar. A atitude de Zidane, do técnico Domenech (aquela figura asquerosa e prepotente) e dos jogadores derrotados que não quiseram voltar ao campo para a premiação do 2º lugar ilustra bem o sentimento francês de ainda se acharem o centro do universo. Até o Maradona foi mais decente do que eles todos. Quem não se lembra do Dieguito aos prantos, ao lado dos seus colegas, recebendo a medalha de vice-campeão em 90 (eles que já tinham se contentado tão honrosamente com o vice-campeonato da Guerra das Malvinas alguns anos antes)? O que os franceses fizeram ontem será sempre lembrado como um exemplo negativo de falta de esportividade.
Zidane deu uma aula de como você não deve encerrar uma carreira. No último lance do último jogo de sua vida ele consegue entrar para história como um covarde, destemperado, péssimo exemplo de fair play, um bebê mimado que não pode ser contrariado. Ser considerado “melhor do mundo” depois disso é premiar o mau caráter, o perdedor deselegante, a violência inaceitável. Se ele continuasse jogando, certamente seria punido severamente. Só porque parou de jogar, não significa que foi absolvido. Por isso, na minha opinião não merece o prêmio de melhor da Copa. Deveria receber o prêmio de pior do mundo. Não há o que justifique a atitude de revide deste sujeito, que foi vergonhosamente minimizada pelo site oficial da FIFA. Após rasgados e desproporcionais elogios ao “futebol perfeito” de Zidane, diz apenas que ele “foi expulso por atingir o peito de Materazzi”. Prêmio ridículo, por uma entidade ridícula, numa copa ridícula, para um jogador ridículo.
Esta minha indignação tem uma razão de ser. Pessoas públicas são modelos. O que eles fazem se reflete na maneira das pessoas agirem e pensarem. Quando o técnico se indigna com o bandeirinha por ter “dedurado” seu jogador, ele passa a idéia de que o importante não é a regra do jogo, mas a malandragem de se cometer uma indisciplina sem ser pego em flagrante. Quando o Zidane revida uma ofensa com uma cabeçada, ele reforça a idéia de que você não deve levar desaforo para casa. Quando ambos mostram dificuldade em aceitar uma derrota, eles incentivam a intolerância. E mais: quando os argentinos brigaram no final do jogo contra a Alemanha, foram taxados de bárbaros ignorantes, de agressores bandoleiros. E agora? Por que ninguém fala nada? Porque são europeus? O Henry andou dizendo que brasileiro jogava futebol porque não estudava. Será que o Zidane aprendeu a dar cabeçada no adversário na faculdade ou na biblioteca? Vejo nessas coisas algo bastante didático: o homem não vale nada em lugar nenhum do mundo. Achar que o lugar ou a cultura onde você nasceu e foi criado fazem você ser melhor ou pior do que os outros é de uma ignorância a toda prova.
“Zizou” sai do futebol carregando a marca de um derrotado. Não apenas por ter perdido uma decisão, mas por tê-la perdido sem dignidade, sem respeito, sem profissionalismo e sem educação.
Todo mundo tem o direito de errar. Todos nós temos aquele dia em que deixamos aflorar nossos sentimentos mais vis. Tudo bem. Não é simplesmente uma questão de crucificar o homem e personificá-lo como o mal do mundo. Ele ainda pode consertar a bobagem que fez: é só vir a público e dizer “pessoal, quero pedir desculpas pela minha atitude anti-desportiva desse domingo. Eu pisei na bola e acabei manchando a minha carreira no último minuto. Foi mal, hein?” Talvez um dia, quando a poeira baixar, ele até o faça.
Até lá, ficará a imagem não do maior jogador da França de todos os tempos, mas o estigma de alguém que fechou da forma mais melancólica possível sua carreira e o maior evento esportivo do planeta.
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Pensando bem:
“Melhor é o fim das coisas do que o seu começo” Salomão





