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Papagaios de pirata

Amigos, aqueles que não assistiram a este hilariante vídeo precisam fazê-lo antes de continuar a ler este artigo. É impressionante. Uma moçada que se candidatou a artista foi pedida a cantar o hino nacional do Brasil. O resultado foi desastroso. Assassinaram o coitado. Diga-se que é uma letra bem antiga e difícil, mas pelo menos os camaradas podiam cantar o que está escrito e não o que lhes veio à cabeça. Além de demonstrar vividamente o “altíssimo” nível dos programas da televisão brasileira, de passagem mostra também a alta cultura de um povo que quer ser ícone de sua geração. “Raios frígidos” é demais!

Depois de assistir e dobrar de rir, não pude deixar de aproveitar o gancho. Lembrei-me das centenas de milhares de cristãos que se reúnem todos os finais de semana e que, à semelhança destes candidatos, cantam de olhos fechados, mãos para o alto, compenetrados como só. No entanto falam de coisas que não fazem o menor sentido para eles. Cantam com o espírito, quem sabe, mas sem nenhum entendimento. Não têm a menor noção do que significam aquelas palavras.

Às vezes sabem o seu sentido morfológico. Conhecem o vocabulário. Não são iletrados e incultos. Mas falam de experiências que não têm, de uma vivência que nunca tiveram, de uma relação que só conhecem de ouvir dizer. São como papagaios de pirata: de tanto andar no ombro do dono, aprenderam as expressões pertinentes ao homem do mar e são capazes de repeti-las a todo instante. Mas são apenas papagaios. Imitam os sons, sem ter a mínima idéia dos sentidos. Afinal, não é muito difícil aprender a letra das músicas e cantá-la completinha. Especialmente em dias em que as canções são compostas de duas linhas, repetidas 58 vezes. Sinceramente, com o perdão da liberdade hermenêutica, “sacrifício de louvor” às vezes é agüentar essa cantilena por 50 minutos durante uma reunião!

Enfim, o que chamamos de “louvor” pode não passar de uma sacrossanta… enrolação. O sujeito finge que está cantando, mas como Deus não consegue fingir, ele consegue enganar no máximo quem está ao lado dele. E aí, diferentemente do vídeo citado, não tem graça nenhuma. Nem sempre é assim, é verdade, mas pode ser. E isto não pode ser assim!

Aproveitando o ensejo, vai aí um comentário sobre o atual estágio da música evangélica no Brasil. Temos mesmo que engolir os mantras que estamos vendo invadir as igrejas? Jesus Cristo falou daqueles que usam de “vãs repetições” quando se dirigem a Deus. Veja lá se esta repreensão não se aplica aqui. “Agora só os instrumentos; agora só as vozes; agora só os homens, agora só as mulheres; agora só os baixinhos”. E lá se vão 10, 15 minutos repetindo a mesma coisa.

Eu defendo a música contemporânea, sou muito eclético no meu gosto musical, tem muita coisa boa sendo produzida hoje em dia. Sou contra a beatificação dos hinos chamados de tradicionais. Por isso tudo, estou muito à vontade para perguntar: será possível que só o que sai na Hillsong é que serve? Depois da “Hosanite” dos anos 90, onde parecia existir Deus no céu e Don Moen e Ron Kenoly na terra, os Lagoínos introduziram a “Hillsonguite” e mais recentemente o “Michael W. Smithismo” que estão enchendo as medidas. A princípio tudo bem. Para somar, ótimo. Mas para substituir sumariamente por tudo o mais, é muito pobre. Quem viu um, viu todos. Até porque as traduções que andam saindo por aí arrebentam a musicalidade, a graça do original. Não é possível que não haja mais espaço para gente como Carlinhos Veiga, Atilano Muradas, João Alexandre, Guilherme Kerr, Carlos Sider, César Elbert e tantos outros. Estranhamente, os mesmos que criticaram os hinos tradicionais por serem eles música européia tornada “sacra”, agora traduzem os australianos numa boa! Será que estamos mesmo numa crise de criatividade? Sem contar que começou uma dança pedindo chuva que é uma coisa impressionante. Faz chover, manda chuva, derrama a chuva. A metáfora é até válida, mas quando é demais pode dar enchente.

Acho que nós precisamos questionar seriamente se entendemos o que estamos fazendo. Repetindo Paulo: “cantarei com o espírito, mas também cantarei com a mente” (I Co 14:15). Nosso culto é um culto “racional”. A mente participa. As coisas precisam ter lógica. Tem que haver raciocínio. Começo, meio e fim. A gente precisa saber o que está fazendo, o que está cantando. Não é questão de filosofar. Não é questão de tornar tudo pura razão. É questão de fazer sentido. Porque se não for assim, fica impossível identificar se estamos agindo por impulso, por pressão do grupo ao redor de nós ou se estamos fazendo “de coração ao Senhor” (Ef 5:19).

E aí vamos virar um bando de candidatos em programa de TV, cantando o hino de bobeira para a multidão dar risada de nós.