Os cenários da nossa vida estão sempre mudando. Ora uma árvore é cortada, ora uma planta é acrescentada no jardim da praça. Outras vezes, quem muda de cenário somos nós. Mudamos de casa, de emprego, de cidade, de namorado. Em cada lugarzinho deixamos um pedaço de “eu”. E cada lugar deixa em nós sua marca, seja ela boa ou ruim.
Quando me abstraio de tudo que é factual e entro numa dimensão além, como quem vê sua vida por satélite, o que vejo são muitos laços me envolvendo por todos os lados, ligando “eu” a “tudo o que gosto” de maneira única. Pra quem vê de longe, é um belo desenho, um tanto quanto surreal. Forma abstrata para algo tão concreto: eu e todas as minhas paixões.
Quando digo “laços”, me refiro a todas as misteriosas ligações que existem entre nós e outras coisas, pessoas, ambientes. Alguns chamam de “gosto”, outros de “afinidade”. Eu chamo de laços, porque os vejo como partes de uma imensa rede que perpassa todas as coisas com as quais nos relacionamos.
Há laços que são visíveis, como a cumplicidade entre dois amigos expressa em um abraço. Outros só podem ser sentidos, como aquele friozinho na barriga que só você sabe que sente quando vê alguém, ou ouve uma determinada música que está singularmente ligada à sua alma.
Alguns laços conseguimos explicar e discernir de onde vieram, pra onde vão, onde fixam suas amarras. Outros são mais disformes, fluidos, de difícil delimitação. São aqueles que parecem ter sempre existido, não dá para distinguir início, menos ainda para imaginar um fim. E muitos não têm fim mesmo. Nossos cenários mudam e eles permanecem, ainda que sem poder se consolidar. Ficam ali simplesmente existindo, marcando presença, nos levando a lugar algum. É o caso de quem passa a vida tentando um emprego em determinada área e não conseguindo, querendo morar em outro país e não obtendo visto, querendo dar prosseguimento a uma centelha de amor que não é valorizada nunca.
Às vezes, alguns laços são simplesmente cortados, desfeitos bruscamente, arrancados de nós. É o caso quando se gosta de alguém que te machuca; Outras vezes, surgem sem poder. É o caso quando nos envolvemos com quem/o que não nos faz bem: vícios, gente mal intencionada… o que me leva à conclusão de que muitos laços devem ser simplesmente ignorados, camuflados, sufocados por uma vontade maior de ser livre de tudo que nos faz mal.
Fácil seria dizer “não” ao que não nos chama. Fácil seria dizer “adeus” a quem não se ama, desviar os olhos do olhar que não inspira… Mas laços não são assim. Pelo contrário, quando presentes são sempre sinais de alguma afinidade que ultrapassa a nossa simples vontade. Por isso é tão difícil desgarrar-se de um lugar, ignorar um certo olhar, camuflar a majestade daquilo que reina no seu coração.
São tantas ligações, tantas misturas, que a essa altura é difícil discernir o que é bom, o que é ruim, o que é real e o que é sombra… Na confusão de tantos laços, às vezes me perco, tentando encontrar razões, inícios, fins, extremidades, origens e destinos… Eu vivo assim. Puxo daqui, solto de lá… Neste vai-e-vem minhas ligações acabam virando novelos embolados, e se de longe parecem um belo e abstrato desenho, de perto o que enxergo são labirintos concretos. Meu cenário é um verdadeiro emaranhado de linhas dentre as quais caminho, muitas delas sem sentido ou razão aparente.
Se eu me der corda, passarei a vida tentando entender o porquê de tantos nós; buscando saber a razão de tantos cortes bruscos nos meus laços mais belos. Estou aqui na frente do computador escrevendo tudo isso em uma tentativa alucinada de calar todo esse mar de perguntas sem respostas, esperando ouvir lá no fundo aquela voz que cala todos os conflitos. Aquietando-me aos poucos, ouço um sussurro, um murmuro doce que vai sutilmente tornando-se em voz.
Ela vem e me mostra que ainda mais difícil do que entender o porquê de tudo isso, é tirar o foco dessas dúvidas, tirar delas o poder de nos desconcentrar, desconsertar, desconectar do nosso caminho. Difícil é saber questionar sem se perder, sem interromper os bons processos, sem se deixar levar pra outros rumos. A vida é uma eterna novidade, e isso não vai parar por aqui. Nós serão resultados de muitos caminhos entrelaçados. Laços continuarão sendo cortados onde eu menos espero.
Com o tempo vou entendendo que o melhor a fazer é aceitar que muitos desses laços jamais poderão ser explicados ou entendidos. Muitas origens e destinos só serão conhecidos ao fim desta “era não-eterna”. Muitos fatos, olhares e gestos apenas farão sentido quando acoplados a um propósito maior que poderá finalmente ser discernido sem falhas. Nesse dia poderemos entender os “porquês” e os “praquês” que hoje nada mais são do que pontos de interrogação que nos instigam.
Meu desejo é que cada laço que já nos envolve e que vier a nos envolver nesse misterioso caminho – seja ele doloroso ou não – direcione-nos para o melhor lugar. Que contribua para o bem da nossa alma, o engrandecimento do nosso espírito e o estreitamento da nossa relação com o Doador de toda a vida. E longe de demagogia, digo isso tendo plena consciência de que é possível. Porque eu sei que mesmo os menores cacos podem ser transformados em um belo vitral. No fundo, tudo isso faz parte de um processo que é bom: a vivência, a experiência de estar vivo.
Para não me perder em meio aos tantos labirintos disformes que encontro na rota da vida, o grande segredo está em me deixar guiar por Aquele que é o Início e é o Fim, em quem todas as coisas são, existem e subsistem. Em quem reside toda a vida, todo o sopro que nos faz respirar, e todo o som que nos chama à existência: Deus, Aba, meu Pai. E isso não é simplismo, é realismo.





