Estou aprendendo a conhecer a Deus. De dentro pra fora.
Nasci em um lar cristão. Passei a vida em bancos de igrejas, ouvindo sobre este Deus tão maravilhoso, que nos ama, que cuida de nós, e que por nós entregou seu filho. Esse Deus que também odeia o pecado, odeia hipocrisia, orgulho e mentira. Passei longos anos ouvindo que para conhecê-lo eu tenho que ler a bíblia e orar, ser sua amiga, e assim aprenderei a amá-lo.
Sentia-me culpada cada vez que eu percebia que não estava fazendo isso, ou que eu estava praticando uma daquelas coisas contidas nas listas que as igrejas nos apresentam juntamente com o evangelho: a infindável lista dos “não-pode”. Sentia-me um ET por ver minhas colegas declarando tão convictamente seu amor por Deus, e não conseguindo dizer isso com a sinceridade devida.
Poucas vezes consegui sentir que eu estava internamente adaptada aos padrões evangélicos. Poucos foram os dias que eu realmente ficava com a consciência tranqüila porque consegui finalmente chegar em casa e orar, falar com Deus. Sentar em minha cama e praticar o rito devido para que Deus me ouvisse.
Quantas vezes me peguei tentando encaixar-me nos padrões que eu via, tentando aproximar meu coração do ideal evangélico: coração apaixonado por Jesus. Mas sendo sincera comigo mesma, eu não conseguia sentir essa paixão ardente. Eu não conseguia cumprir a lista dos não-pode. Sentia-me indigna perante Deus. Sentia-me pior, e ainda mais envergonhada chegava diante dEle. Lia versículos que me eram como chicotadas nas costas, alertando-me que eu era mesmo a pior, por conhecer a verdade, mas não praticá-la. Mal sabia eu que, dessa verdade, eu só conhecia uma parte.
Mas para não dar a impressão de que dentro de mim as coisas não estavam corretas como deveriam, sempre mantive a correta postura cristã: trabalhando na igreja, freqüentando assiduamente aos cultos, etc etc. Mas Deus sabe o quanto dentro de mim isso me incomodava. Eu buscava agir da maneira certa pra Deus olhar pra mim com menos raiva, e a cada domingo eu tinha a esperança de que a partir da segunda-feira seria tudo diferente: eu conseguiria cumprir as regras, e no próximo domingo então estaria com a consciência mais tranqüila perante Deus.
Mas não….mesmo quando eu conseguia cumprir as regras, não funcionava como eu esperava. Algo continuava me incomodando, algo continuava fazendo-me sentir que ainda não estava certo. E a minha aflição crescia…
Me aproximei de pessoas que se dizem apaixonadas por Jesus, e tentei extrair delas a fórmula para me tornar assim também. Mas não consegui. Quantas vezes tentei começar denovo, mas não adiantava. E passei a me torturar, por não conseguir ser a cristã que deveria. Ir à igreja tornou-se um incômodo. Quanto mais eu ouvia a palavra de Deus, mais me sentia longe dela. Quanto mais eu me martirizava por isso, menos força eu tinha pra tentar algo novo.
Logo eu!! Logo eu que tantas vezes na vida escutei a mensagem de que Deus não nos aceita pelo que fazemos, pois seu amor é incondicional. Mas como?! Que tipo de cristã era eu que não conseguia retribuir o amor tão maravilhoso de Deus? Que tipo de cristã era eu que não conseguia ao menos obedecer as ordens do mestre?
Aí então eu estacionei. A carga estava pesada demais pra eu prosseguir neste árduo caminho, e então resolvi parar. Quando parei, minha memória começou a retroceder no tempo, e como a um filme, pude ver frente a mim algumas coisas que Deus tinha me falado, mas que eu não tinha ouvido. Lições que ele me mostrava, mas eu não compreendia. E algo começou a mudar dentro de mim.
Juntando estas cenas, pude perceber tantas coisas erradas que eu estava fazendo. Não estou falando dos pecados convencionais…Eu estava agindo errado porque não compreendia Deus da forma correta. Não o enxergava como Ele quer e deve ser visto.
A forma com que enxergamos a Deus é determinante para o nosso relacionamento com Ele. Saber com quem se está falando muda a nossa postura. Ou vai me dizer que se desse um telefonema para o presidente do Tribunal de Justiça você o trataria da mesma forma como trata seu melhor amigo?
Assim, não enxergando a Deus como deveria, meu relacionamento com Ele se dava de forma errada. Em minhas orações, eu o via como um Pai que:
– supre as minhas necessidades,
– me ouve quando eu preciso desabafar e enxuga minhas lágrimas,
– se alegra quando eu me alegro,
– me castiga quando o desobedeço,
– se irrita quando o ignoro,
– que me ama como a uma filha querida.
Em cima desta imagem, pautei meu relacionamento com Ele, e por isso tantas vezes me travei. Sentia-me envergonhada porque não o obedecia de forma constante. Tinha medo dos seus castigos. Tinha muita vergonha de pedir-lhe algo, não me sentia digna de desabafar com ele, e timidamente O agradecia quando lograva alguma conquista.
Por isso, resolvi que só estabeleceria um relacionamento mais profundo com Ele quando eu conseguisse cumprir as regras da casa. Só desfrutaria do seu amor quando eu mesma conseguisse chegar até ele com mais amor, mais sinceridade, e menos pecados. Mas foi aí que Deus agiu. Foi a partir de então que, à sua maneira, Ele começou a me fazer entender quem Ele realmente é, e que tipo de pai ele é para seus filhos.
Este processo está apenas começando. Começo a conhecê-lo melhor, mas desta vez da forma correta, que Ele está me mostrando. Começo a enxergar um Deus que está acima das regras, além das liturgias, dos rituais e dos cultos. Um Deus que, muito mais do que suprir as minhas necessidades, conhece cada suspiro do mais íntimo do meu ser. Um Deus que por trás das minhas lágrimas, enxerga os motivos que me levam a chorar. Hoje vejo um Deus pessoal, que me ama apesar de mim mesma. Um Deus que não olha o passado, mas que vê a sinceridade do meu coração. Um Deus que antes de exigir cumprimento de regras, quer transformar o meu interior. Quer me dar prazer na Sua vontade, e não me fazer sentir obrigada a cumpri-la. Um Deus que de maneira sobrenatural, me faz chegar até Ele não por obrigação religiosa ou dever cristão, mas por ter prazer na companhia constante de alguém tão maravilhoso e suficiente. Hoje vejo Deus não como um general, que me castiga cada vez que desobedeço as regras, e do qual sinto medo e vergonha, me escondendo cada vez que peco. Vejo-o agora como um Deus de amor, que me criou, me escolheu e me fez assim: Priscila. Não aquele que se preocupa com regras e estereótipos, nem que manda e cobra tudo, mas aquele que por trás da minha casca, vê um coração, e por trás das minhas atitudes, vê os meus valores e princípios.
Eu decidi parar de agir, e só então Deus encontrou espaço para Ele mesmo fazer a obra em minha vida. Nada tenho feito em minhas próprias forças que me façam mudar de perspectiva. Mas tudo está mudando! De forma sobrenatural e extraordinária, Deus está começando em mim uma mudança de dentro pra fora. Mudança a qual eu nunca experimentei antes. Ao invés de me esforçar para cumprir regras, Deus tem se tornado alguém tão especial em minha vida que estou tendo grande prazer em não desagradá-lo. Isso faz toda a diferença.
Antes, eu estava presa ao exterior. Sabia que muitas coisas estavam erradas, mas não sentia no meu íntimo, porque eu não tinha dado espaço pra Deus transformar isso dentro de mim. Tinha apenas entendido racionalmente que determinados atos não agradavam ao Senhor. Assim, acabava me preocupando com o cumprimento das regras como um fim em si mesmo, esquecendo-me de que o que realmente importa é o coração, o qual Deus conhece na mais profunda sinceridade, e sabe perfeitamente todas as intenções. Eu estava no caminho inverso. Ao invés de conhecer a Deus e dEle extrair meus princípios, me agarrei a um pacote pronto do que “pode” e “não pode”, e através desse pacote eu procurava aceitação – não para a salvação, porque esta eu sabia que não depende disso – mas para um relacionamento mais íntimo com Deus. Não conseguindo cumpri-lo, acabei me afastando do meu Senhor.
Mas quando Deus agiu, Ele me fez entender que meus esforços eram em vão, e que, como diria meu grande amigo Salomão, eu estava correndo atrás do vento. Hoje posso enxergar que quem me faz querer cumprir a vontade de Deus é Ele próprio. A partir de uma comunhão íntima com o nosso Senhor, saberemos exatamente o que lhe agrada ou não. Sua vontade não nos é empurrada, mas sim é plantada dentro de nós – seus filhos, mas brota apenas nos corações que lhe oferecem espaço.
Agora sim minha visão de Deus é outra. As orações são outras…sem máscaras, sem capas, sem medo, sem vergonha. Hoje, falo com Deus como quem fala a um grande amigo. Chego em Sua presença para com Ele conversar, desabafar, pedir direção, agradecer, engrandecer, louvar. Converso com Ele não como quem conversa com o pai toda vez que quer pedir algo, mas como o filho que procura o pai nos momentos que tudo parece sufocar, que as incertezas parecem reinar. Um filho que procura o pai na hora que quer entender melhor a vida. Um filho que busca conselhos para se manter de pé. Um filho que vê o pai não como uma fonte de suprimentos, mas como um amigo leal, sábio e querido, que está ao seu lado não para te condenar, mas para te ajudar e te fazer sentir amado. Não vejo mais na oração um instrumento que Deus coloca à nossa disposição para fazermos as coisas acontecerem, mas vejo nela a maneira de estabelecer uma íntima relação com Deus, e tornar-me sua amiga. Através da oração posso demonstrar carinho, amor e afeto por meu Pai, mas agora, verdadeiramente. Não mais por obrigação, mas por prazer. E quando oro, não o sinto lá do alto olhando pra mim, mas o sinto ao meu lado. Me abraçando, me pegando no colo, me aquecendo com seu infinito amor.
Não deixei de ter problemas, mas vejo em cada um deles uma porta pra conhecer melhor ao Pai. Não cessei as lágrimas, mas cada uma delas é derramada juntamente com outra de esperança, e a certeza de que agora sim elas não serão choradas em vão. Porque quem está no controle não sou Eu, mas o Senhor da vida, que me conhece, e sabe o que é melhor pra mim.
Em toda a minha vida, nunca senti nada tão prazeroso. Meu corpo foi criado pra isso, mas corrompido pelo pecado. Dentro dele, porém, está uma alma que só encontra paz e alegria quando entregue nas mãos do seu dono. Finalmente, ela O encontrou. Mas dessa vez sem a capa da religiosidade. Sem o peso das regras. Sem a máscara do bom cristão. Ela foi entregue nua e crua nas mãos do oleiro. Agora sim ela pode sentir o seu toque, e por Ele ser moldada.
A Deus só tenho a agradecer. Minha vontade de louvá-lo só cresce. A cada dia aumenta a sede por buscá-lo. Mas agora é legítimo. Não é pra parecer crente, nem pra me justificar. Não é por pedras a mais na coroa que hei de ganhar no céu, nem para aplausos humanos que possam surgir. É sim por uma vontade profunda e sincera que brota em meu coração. É resposta ao amor que brota por esse Deus maravilhoso. É por necessidade do novo coração que Ele me deu, ao qual eu finalmente dei espaço, e que hoje respira aliviado.
Eu caí no erro do cristianismo. Fiquei por muito tempo presa às amarras da religiosidade, prendendo-me a coisas deste mundo. Mas em seu infinito amor, graça e misericórdia, o Senhor me resgatou desse mundo sofrido, e me levou para perto de si, onde encontrei refúgio e paz.
Esta carta foi escrita para abrir os seus olhos. Talvez você tenha acabado de conhecer a Cristo. Ou pode ser que a muito tempo você esteja freqüentando uma igreja. Você pode ter anos de batizado, décadas de membro, ou como eu, pode até ser alguém muito ativo em sua igreja, um “bom-cristão”. Mas hoje eu te convido a conhecer um Deus pessoal. Te convido a desfazer-se da imagem que você construiu de Deus no decorrer de todo este tempo, e deixar que Ele mesmo reconstrua essa imagem dentro do seu coração. A partir de então, tudo acontecerá com mais naturalidade, pois o processo é de dentro pra fora.
Estou convidando-o a uma nova espiritualidade. Uma espiritualidade verdadeira, cujo único paradigma que governe seja o da vontade soberana de Deus. Não mais regras, tabus, opiniões ou achismos, mas sim os valores e princípios que nascem no coração de Deus, e que Ele sobrenaturalmente transfere ao nosso.
Convido-o a, juntamente comigo, fazer uma releitura do novo testamento. Desafiemo-nos a enxergar através das linhas e entrelinhas daquelas palavras, a riqueza divina das escrituras. Observemos como tudo foi cuidadosamente preparado para Deus estar entre nós. Vejamos a bela poesia com a qual se escreveu toda a história. E em cada leitura, nos lembremos de que Deus é um Deus pessoal, que fez isso por cada um de nós, individualmente. Nosso amor por Ele crescerá, e só então entenderemos os princípios que Ele nos deixou em sua palavra, e cumpriremos com prazer seus mandamentos.
A Ele seja a glória!





