Quarenta anos depois dos fatos que inspiraram o filme “Mississipi em Chamas”, o ex-membro do Ku Klux Klan (KKK) Edgar Ray Killen deverá responder a partir de segunda-feira à Justiça da Filadélfia (Mississippi, sul) pelos assassinatos de três jovens militantes anti-racismo em 1964.
O processo – uma oportunidade para que o sul dos Estados Unidos revise seu passado racista e violento – começou com a escolha do júri.
Cerca de 400 pessoas serão ouvidas nesta segunda e terça-feiras pela acusação e pela defesa, que deverão escolher os 12 jurados.
Os jurados em potencial chegaram à corte, um pequeno prédio de tijolos vermelhos no coração da Filadélfia, uma cidade rural do sul do país, sem grande aparato policial.
Killen, de 80 anos, esteve presente na audiência e chegou ao tribunal em cadeira de rodas, olhou para frente e não deu nenhuma declaração.
As ruas do entorno do tribunal foram fechadas por razões de segurança, apesar de nenhuma manifestação ter sido anunciada.
Killen, ex-operador de uma serralheria e ex-pastor batista, foi acusado, em janeiro, de ter sido o mentor dos assassinatos de três jovens militantes de direitos civis: um negro e dois judeus nova-iorquinos. Durante mais de 40 anos Killen viveu tranqüilamente a apenas alguns quilômetros do local do crime.
No chamado “Verão da Liberdade” de 1964, milhares de militantes do norte do país, sobretudo jovens brancos, viajaram para os estados do sul segregacionista para inscrever os negros nas eleições. Entre estes militantes estavam dois judeus de Nova York, Michael Schwerner, de 24 anos, e Andy Goodman, de 20, que se reuniram com um ativista negro, James Chaney, de 21 anos, no centro de Mississipi.
Em 21 de junho daquele ano, os três militantes dos direitos civis voltavam de carro de uma cidade vizinha, onde a igreja freqüentada por negros havia sido incendiada na véspera, quando foram detidos pela polícia da pequena cidade da Filadélfia, com a falsa acusação de excesso de velocidade.
Após serem mantidos na delegacia durante várias horas, foram liberados de madrugada. Depois de uma terrível perseguição, sofreram a emboscada de dois veículos ocupados por membros da KKK e policiais.
Os corpos dos três jovens, com sinais de espancamentos e crivados de balas, foram retirados 44 dias depois de um açude, depois de uma intensiva busca pelo FBI (polícia federal americana), sob o olhar aterrorizado do país inteiro.
O crime inspirou o filme “Mississipi em Chamas” (1988), de Alan Parker, estrelado por Gene Hackman e Willem Dafoe. Killen, que teve o processo adiado em março por ter sofrido um acidente enquanto cortava madeira, declarou inocência.
O ex-pastor batista é o primeiro e único acusado de assassinato neste caso que, mais que qualquer outro com motivação racista dos anos 60, comoveu os Estados Unidos.
Embora Killen seja acusado de ser o mentor dos crimes, os homens que supostamente foram os executores já faleceram, segundo várias testemunhas.
Cerca de 20 membros da KKK, entre eles Killen, foram interpelados em 1964. Sete pessoas acabaram sendo condenadas pela violação dos direitos civis das vítimas. Em 1967, um júri totalmente integrado por brancos impôs a eles penas de 3 a 10 anos de prisão.
Edgar Ray Killen, ao contrário, foi liberado, e uma mulher do júri chegou a declarar que se negaria a “condenar um pastor”. Em 1998, mais de 30 anos depois, um dos condenados voltou a incluí-lo no processo, o que levou à reabertura do caso.
As primeiras alegações deverão começar em breve. O processo, transmitido por uma televisão a cabo americana, pode durar várias semanas.
Fonte: UOL





