Home Artigos Cortante como bisturi

Cortante como bisturi

“Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até a divisão de alma e espírito, e de juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e intenções do coração.” [1]

Gostaria de hoje fazer uma comparação deste texto especial de Hebreus com o método clínico usado na Medicina.

O método Clínico é o meio pelo qual o Médico estabelece as condições de ajudar o seu paciente, conhecendo-lhe o problema e propondo-lhe soluções. Há algumas etapas do método clínico que competem ao Paciente, outras ao Médico e outras devem ser vivenciadas por ambos.

O paciente procura pelo médico, porque ele tem um problema. Logo o médico deve tentar responder à pergunta: Que problema? E para isto vai proceder uma Investigação. Serão reunidos dados da história, dados dos exames diagnósticos. Quando a investigação estiver concluída, o médico será capaz de estabelecer o diagnóstico e fazer a(s) proposta(s) terapêutic(s). O paciente decidirá se irá aceitar a terapêutica proposta pelo médico.

Gostaria agora de fazer algumas aplicações práticas desta método clínico trazendo para as nossas vidas espirituais. O texto que lemos diz que a Palavra de Deus (i.e. as Escrituras) é suficientemente capaz para discernir, (i.e. julgar) os pensamentos e intenções do nosso coração. O que isto quer dizer?

Em primeiro lugar, as Escrituras são capazes de nos analisar. Deus analisa não só nosso corpo, mas também nossa alma e espírito. O Raio X divino é capaz de discernir até mesmo coisas que nós não conhecemos em nós mesmos.

Entretanto, assim como no método clínico, há algumas etapas a cumprir, por exemplo, Deus não nos revela o estado da nossa saúde espiritual se nós não O procurarmos com esta finalidade. Ele é o médico da alma, contudo nos deu livre-arbítrio. Ele não nos atropela, mas permite que acheguemos a Ele.

Muitos pensam gozar de plena saúde, e quando fazem um check-up descobrem que nos órgãos mais íntimos de seu corpo existe algum problema. Se nós nunca formos ao Senhor para pedir que nos analise nós quase sempre iremos pensar que nossa saúde espiritual está íntegra. “Aquele, pois, que pensa estar em pé, olhe não caia.” [2]

Somos acometidos por diversos males espirituais. Uns grandes, com grandes conseqüências, outros pequenos, que deixamos passar, somos coniventes, afinal não nos trazem grandes conseqüências. É importante, porém pensarmos que qualquer distúrbio em nossa vida espiritual traz conseqüências para o Reino de Deus. Nós podemos estar cheios de tumores e nem sabermos!!! (“… estando cheios de toda a injustiça, malícia, cobiça, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, dolo, malignidade” [3])

Davi conhecia muito bem este caráter tremendo de Deus e quando escreveu o salmo 139 ele exemplifica muito bem o que é estar dia-a-dia diante do consultório do Senhor sendo sondado por Ele.

“Senhor, tu me sondas, e me conheces; Tu conheces o meu sentar e o meu levantar; de longe entendes o meu pensamento; Esquadrinhas o meu andar, e o meu deitar, e conheces todos os meus caminhos; Sem que haja uma palavra na minha língua, eis que, ó Senhor, tudo conheces; Tu me cercaste em volta, e puseste sobre mim a tua mão… Se eu disser: Ocultem-me as trevas; torne-se em noite a luz que me circunda”.[4]

Alguns problemas muito comuns que ocorrem nesta área:

  1. Temos muitos problemas, mas nos concentramos em encontrar problemas nos outros, como se médicos fôssemos;
  2. Temos às vezes um grande problema, entretanto não acreditamos que ele nos perturba espiritualmente;
  3. Temos um sério problema e já entendemos isto, contudo não estamos dispostos a aceitar a proposta terapêutica divina que por muitas vezes será dolorosa, mas necessária para que o problema seja corrigido.

Alguns problemas serão passíveis de uma terapêutica clínica, de fácil execução: Uma visita, um pedido de perdão ao irmão que você ofendeu, passar a participar mais ao invés de criticar. Outras vezes será doloroso, será preciso uma cirurgia, precisaremos abandonar pecados com uma conseqüência pesada: Adultério, cobiça, maledicência, insubmissão… e vai doer!!!

Mas o Senhor Jesus nos disse claramente que a vida cristã não seria de todo um mar de rosas. “Tenho-vos dito estas coisas, para que em mim tenhais paz. No mundo tereis tribulações; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo.”[5]

Por fim: Eu não devo intervir terapeuticamente em um paciente sem que ele tenha seus problemas de base resolvidos. Se eu intervir, as vezes eu corro o riscos, ou eu não estarei cuidando do problema maior. No nosso caso, o problema de base do ser humano é o pecado. Não adianta corrigir as mazelas morais da nossa vida se o nosso maior problema não for resolvido.

Notas:

[1] Hebreus 4:12 [2] 1 Coríntios 10:12 [3] Romanos 1:29 [4] Salmo 139:1-5,7 [5] João 16:33