Não se acende a luz do Sol
Nos 220 voltz dos palácios de Brasília […]
Pra que medir força com o Sol da Justiça
Pra que querer brilhar mais que a Estrela da Manhã
Pra que combater o Bem com o Mal
De que lado você está?
De que lado você quer ficar?
Onde está a honra dos orgulhosos?
A sabedoria mora com gente humilde
Liberdade, liberdade, liberdade… Carlinhos Félix

Êxodo 1:9 Disse ele [Faraó] ao seu povo: Eis que o povo de Israel é mais numeroso e mais forte do que nós.
15 Falou o rei do Egito às parteiras das hebreias, das quais uma se chamava Sifrá e a outra Puá, 16 dizendo: Quando ajudardes no parto as hebreias, e as virdes sobre os assentos, se for filho, matá-lo-eis; mas se for filha, viverá.
17 As parteiras, porém, temeram a Deus e não fizeram como o rei do Egito lhes ordenara, antes conservavam os meninos com vida.
18 Pelo que o rei do Egito mandou chamar as parteiras e as interrogou: Por que tendes feito isto e guardado os meninos com vida?
19 Responderam as parteiras a Faraó: É que as mulheres hebreias não são como as egípcias; pois são vigorosas, e já têm dado à luz antes que a parteira chegue a elas.
20 Portanto Deus fez bem às parteiras. E o povo se aumentou, e se fortaleceu muito.
21 Também aconteceu que, como as parteiras temeram a Deus, ele lhes estabeleceu as casas.

O Livro de Êxodo é uma grande narrativa de salvação. Deus salva seu povo da opressão e da escravidão egípcia. É bastante expressivo que os primeiros nomes citados nesse relato fundamental da obra de Deus na história sejam os de Sifrá e Puá[1], duas parteiras da classe social e econômica mais baixa daquela sociedade. As duas mulheres desacatam a ordem do rei egípcio e, com esse ato de rebeldia, desencadeiam uma série de acontecimentos históricos que, a seu tempo, colocados lado a lado com a história de Jesus, constituiriam o relato paradigmático da salvação para toda a história. A fidelidade e ousadia de Sifrá e Puá a Deus surpreendem e ao mesmo tempo causam constrangimento. O rei do Egito, também chamado de faraó, talvez o governante mais poderoso da época, não tem sequer seu nome mencionado.

Mas o nome dessas duas desconhecidas mulheres hebreias[2] é revelado e, justamente por isso, elas deixam de ser desconhecidas: Sifrá e Puá. São parteiras. Seu trabalho é trazer bebês ao mundo. Quando o faraó ordena que matem esses bebês, elas desobedecem sua ordem de modo simples e sem alarde — um gesto inesquecível. A salvação surge das condições em que nos encontramos, quando a vida é confrontada com a morte. Trabalhando diariamente em tempos e lugares nos quais a vida humana irrompe do ventre e entra para a história, Sifrá e Puá se recusam a obedecer a ordem de matar bebês.

O desejo de promover vida versus a ordem de matar.

» A ordem para matar vem do caráter anônimo e impessoal do privilégio e do poder é uma decisão parida no ventre do pecado, do mal, da morte e do demônio;
» O desejo de promover vida vem de duas mulheres que vivem à margem da sociedade, porém são identificadas de modo extremamente pessoal: Sifrá e Puá, representantes dos oprimidos e impotentes e destacadas, sobretudo por serem tementes a Deus.

No estilo bíblico de escrever a história e participar dela, líderes mundiais são apenas coadjuvantes. Os papéis decisivos são desempenhados por pessoas como Sifrá e Puá. Enquanto não entendermos e aceitarmos isso, esse posicionamento da ação, essa fundamentação no que é pessoal e comum, não poderemos participar integralmente da ação principal da salvação.

1. Um exemplo de Fidelidade. (v.15-17)

As parteiras temeram a Deus. (v.17)

Sifrá e Puá eram tementes a Deus (Ex 1:17). Temer a Deus, não significa ter medo dele, é antes de tudo respeitar Sua vontade. Anos mais tarde, Moisés receberia no Sinai esta vontade por escrito: Não matarás [Ex 20:13]. De alguma forma, porém, Sifrá e Puá conheciam esta palavra em seus corações. O profeta Jeremias diz: “Esta é a aliança que farei com a comunidade de Israel depois daqueles dias”, declara o Senhor: “Porei a minha lei no íntimo deles e a escreverei nos seus corações. Serei o Deus deles, e eles serão o meu povo…” Jeremias 31:33. Apesar do contexto de Jeremias tratar de forma imediata da restauração pós-exílica, dentro da meta-narrativa bíblica da salvação é possível afirmar que sempre foi a intenção de Deus que a Lei [que representa a Vontade de Deus] produzisse mais resultados “de dentro pra fora” do que o contrário.

As parteiras não fizeram como o rei do Egito lhes ordenara. (v.17)

Conheça o exemplo de POLICARPO [156 D.C]. Policarpo foi discípulo de João. Viveu na cidade de Esmirna. O martírio de Policarpo é descrito um ano depois de sua morte, em uma carta enviada pela Igreja de Esmirna à Igreja de Filomélio. É o registro pós-apostólico mais antigo que existe. Diz a história que o procônsul romano, Antonino Pio, e as autoridades civis tentaram persuadi-lo a abandonar sua fé em sua avançada idade, a fim de alcançar sua liberdade. Ele entretanto, respondeu com autoridade: “Eu tenho servido Cristo por 86 anos e ele nunca me fez nada de mal. Como posso blasfemar contra meu Rei que me salvou? Eu sou um cristão”! Por sua negativa sistemática em prestar adoração a César foi sentenciado a ser queimado vivo.

“É mais importante obedecer a Deus que aos homens” (At 5.29). Já que o poder não é algo intrínseco ao governante, mas delegado por Deus, os cristãos devem resistir, pelos meios corretos e legítimos, a quem exerce o poder político contra a vontade de Deus. Para a tradição reformada, o governo é governo legítimo quando e na medida em que é servo de Deus. Assim, não devemos identificar um governo, de forma direta e automática, com a vontade de Deus. Quando uma autoridade, ainda que constituída legalmente, não corresponde aos princípios morais estabelecidos na Palavra de Deus, pode-se dizer que esta é considerada uma autoridade apócrifa, desviada e anátema. Veja: I Rs 13; I RS 16:1-7; I RS 18:1-19; Jr 22:1-9.

2. Um exemplo de Perseverança (v.18-19)

Sifrá e Puá foram convocadas à presença do rei para dar explicações. Mas, por que apenas duas parteiras? Ou (1) estas eram as únicas parteiras entre os hebreus, ou (2) foram as únicas a desobedecer a ordem de Faraó, ou então (3) as únicas cujos nomes foram lembrados.

Se a primeira alternativa for a correta, o número de israelitas não deveria ia além de uns poucos milhares. Isto contradiz a expressão de faraó no versículo 9 “Eis que o povo dos filhos de Israel é mais numeroso e mais forte do que nós”; Além disso, em 12.37 somos informados que 600 mil homens deixaram o Egito no êxodo – além das mulheres e crianças). Talvez a terceira sugestão seja a melhor.

Não somos informados se as parteiras estavam mentindo ou se os rápidos partos dos bebês israelitas eram um fato biológico. O cerne da narrativa não está aí. O mais importante da narrativa está no seguinte fato: mesmo quando o rei descobriu a desobediência das parteiras, elas não voltaram atrás. Mesmo que tivessem mentido, não foi pela mentira que foram elogiadas, e sim por se terem recusado a tirar a vida aos recém-nascidos, respeitando assim, a vontade de Deus.

3. Um exemplo de recompensa. (v.20-21)

Deus fez bem às parteiras. (v.20)

O narrador bíblico diz que Deus protegeu Sifrá e Puá das mãos do rei. FÉ envolve risco! FÉ não é a ausência de medo, de insegurança, de preocupações. FÉ é a decisão de confiar em Deus, de obedecer a Deus e estar pronto para as conseqüências dessa decisão.

Vejamos dois exemplos de FÉ:

Daniel 3:17,18 “Se formos atirados na fornalha em chamas, o Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos livrará das suas mãos, ó rei. 18Mas, se ele não nos livrar, saiba, ó rei, que não prestaremos culto aos seus deuses nem adoraremos a imagem de ouro que mandaste erguer”

Ester 4:16 “Vá reunir todos os judeus que estão em Susã, e jejuem em meu favor. Não comam nem bebam durante três dias e três noites. Eu e minhas criadas jejuaremos como vocês. Depois disso irei ao rei, ainda que seja contra a lei. Se eu tiver que morrer, morrerei“.

…como as parteiras temeram a Deus, ele lhes estabeleceu as casas. (v.21)

“Estabelecer casa” é um eufemismo para “ter filhos”. Mesmo vivendo em dias tão cruéis e perigosos, Sifrá e Pua receberam de Deus o privilégio de estabelecer família. Ter filhos, no contexto do Antigo Testamento, é um sinal de esperança – um indício que vale a pena investir num futuro, ainda que ele não pareça muito auspicioso aos nossos olhos humanos. Esta esperança escatológica nos faz olhar para as circunstâncias e ver que, além delas, está o Deus de Toda a Terra (Isaías 54:5).


[1] Sifrá e Puá significam respectivamente “beleza” e “esplendor”

[2] A expressão “escravo hebreu” (21:2) tem um significado bem mais amplo que “escravo israelita” . A palavra provavelmente tinha uma conotação negativa e preconceituosa, semelhante ao termo atual “cigano”.